A liquidação do Banco Rural por existência de “graves violações” às normas legais foi provocada pela auditoria número 334/2013, aberta em fevereiro, depois que o Banco Central (BC) recebeu denúncias de que o Rural favorecia correntistas ao montar um esquema para omitir o nome de pessoas que sacaram altas quantias. O dinheiro saía dos cofres do BC em carro forte e ia direto para as mãos dos correntistas, sem passar nos cofres do Rural.

Sem caixa

A investigação do BC mostrou que um saque, realizado por um político mineiro, zerou o caixa da agência do Rural em Belo Horizonte.

No mesmo dia, o banco solicitou alta quantia de dinheiro aos cofres do BC e, em vez de dar entrada contábil, fez apenas um anotação informal na tesouraria e enviou a bolada direto para o correntista oculto. Assim, não deixou rastro nos órgãos de fiscalização, como o Conselho de Controle de Atividade Financeira (Coaf) e o Ministério Público.

Blindagem

Com o esquema, o Rural blindava seus clientes. A tática era esconder o nome dos correntistas que sacavam muito dinheiro, já que oficialmente o dinheiro não entrava no banco, que movimentou milhões e favoreceu políticos e empresários do setor de transporte.

PC Farias

“Em 1992, a CPI que investigou o governo Collor concluiu que o Rural teve um papel decisivo para viabilizar o esquema PC Farias”, ao permitir a abertura de contas em nome de pessoas que só existiam no papel e eram usadas para esconder a verdadeira identidade de quem pagava as despesas pessoais do ex-presidente Fernando Collor.

Paulo César Farias cobrava propina de empresas prestadoras de serviços ao governo. O dinheiro era enviado a contas-fantasmas e distribuído. Foi da conta do fantasma José Carlos Bonfim no Banco Rural, por exemplo, que saiu o cheque usado para comprar o Fiat Elba para a família de Collor.

Cartolas

Em 2001, o Rural voltou a ser investigado por uma CPI que apurou fraudes cometidas pelos grandes cartolas do futebol. A comissão identificou que uma representação do Banco Rural nas Bahamas, um paraíso fiscal, estava no caminho de um empréstimo de U$$ 7 milhões obtido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) no Delta National Bank, de Nova York. De acordo com o relatório da CPI, os juros desse empréstimo foram extorsivos e pagos antecipadamente. De Nova York até a conta corrente que a CBF mantinha em uma agência do Rural em Belo Horizonte, o dinheiro passou pelo Banestado de Nova York e, depois, pela agência do Rural nas Bahamas, caminho classificado pelos parlamentares como “tortuoso”.

Em 2005, o Rural aparece como um dos grandes personagens do mensalão. Os dirigentes da instituição à época do escândalo foram condenados pelos crimes de lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta.