BUENOS AIRES – Começou nesta segunda-feira (24) o julgamento de 17 pessoas, consideradas responsáveis pela violência que tomou conta da Argentina nos dias 19 e 20 de dezembro de 2001 – durante a pior crise da história recente do país. Em dois dias de manifestações, que resultaram na renúncia do então presidente Fernando de La Rua, 38 pessoas morreram e centenas ficaram feridas. Passados 12 anos, os primeiros cinco casos começam a ser julgados.
 
Num ato em homenagem às vítimas, realizado nesta segunda-feira (24), em frente ao tribunal, o secretário de Direitos Humanos da Argentina, Juan Martin Fresneda, lamentou que tantos jovens tenham morrido nos protestos de 2001 (alguns deles com 13, 15 e 16 anos), e que a justiça tenha demorado tanto. Mas, ainda assim, ele considera a Argentina um exemplo a ser seguido por países como Venezuela e Ucrânia, onde dezenas morreram em recentes manifestações.
 
“As sociedades sempre pagam um preço alto por mortes, especialmente se ocorrem em manifestações sociais”, disse Fresneda à Agência Brasil. “É muito importante que, na Venezuela e na Ucrânia, a Justiça atue rapidamente, para poder ajudar a resolver os conflitos, seja com comissões da memória, seja com a ação de uma Justiça comprometida, responsável e eficiente”, disse ele.
 
O estopim da violência na Argentina foi a decisão do governo de confiscar os depósitos bancários dos cidadãos, na véspera do Natal de 2001, para pagar a dívida externa. Houve saques a supermercados e protestos contra a recessão e o desemprego. O então presidente Fernando De La Rua decretou estado de sítio, na noite de 19 de dezembro, mas uma multidão desafiou as autoridades e saiu às ruas – com panelas na mão – para protestar na Praça de Maio, em frente ao palácio presidencial. As forças de segurança reprimiram, algumas vezes com tiros.
 
Foi o caso do motoboy Gaston Riva, que na época tinha 30 anos. Ele estava tentando chegar à Praça de Maio, com um grupo de motoqueiros, quando levou um tiro nas costas – a poucos metros da Casa Rosada. Seus amigos participaram hoje do ato, convocado por organizações de direitos humanos. “Ele deixou uma viúva e quatro filhos, e a única coisa que queria fazer era ajudar às pessoas que estavam apanhando da polícia”, disse o colega dele Mariano Roldes, que assistiu ao assassinato.
 
Fernando De La Rua foi acusado de ser o responsável indireto pelas mortes, por ter decretado o estado de sítio e ter permitido a repressão. Ele foi absolvido em tribunais de primeira e segunda instâncias, mas os organismos de defesa dos Direitos Humanos apelaram à Suprema Corte, que deve dar seu veredito em breve. “Se ele for considerado inocente, vamos pedir que venha depor como testemunha; se for considerado culpado, estará no banco dos réus”, disse o promotor Santiago Vismara.
 
Ate o momento, dezessete pessoas foram responsabilizadas direta ou indiretamente pela morte das cinco pessoas, cujos casos começaram a ser julgados nesta quinta-feira 924) - entre eles, o ex-secretario de Segurança Interior do governo de De la Rua, Enrique Mathov. Mais de quatrocentas pessoas vão prestar depoimento e o julgamento – segundo os fiscais – deve demorar dois anos.