ESTOCOLMO - Climatologistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), reunidos em Estocolmo, apresentarão na sexta-feira (27) um novo relatório que deve sustentar com provas cada vez mais sólidas o alcance do aquecimento global e servir de guia para os países visando a um acordo climático internacional em 2015.
 
Com este novo informe, que será publicado em quatro fases até o final do outono de 2014, os cientistas "darão o tiro de largada ao processo" para um novo acordo com vistas a tentar conter o aquecimento abaixo do limite de 2ºC desde o período pré-industrial, destacou Tim Gore, especialista da ONG Oxfam International.
 
Reunidos desde a segunda-feira (23) na capital sueca, delegados de 110 países e cientistas do IPCC devem concluir na noite desta quinta-feira (26) a validação do diagnóstico.
 
O IPCC, co-ganhador do prêmio Nobel da Paz em 2007, apresentará na manhã de sexta-feira o "resumo para autoridades" da primeira fase de seu inventário, em um volume concentrado em aspectos puramente científicos.
 
Na primavera de 2014, chegarão os dois próximos volumes centrados nos possíveis impactos por setor e região, e nos meios de atenuá-los. Em outubro do mesmo ano uma síntese será apresentada.
 
As conclusões do IPCC ameaçam revelar a pouca margem de que os países dispõem para alcançar a meta de restringir a elevação das temperaturas globais a 2°C, no momento em que se sabe que o planeta já esquentou cerca de 0,8°C desde o começo do século XX.
 
"As provas científicas do (...) aquecimento global são reforçadas ano após ano, deixando poucas dúvidas sobre suas graves consequências", lembrou esta segunda-feira o presidente do IPCC, Rajendra Pachauri.
 
O primeiro volume, que se baseia nas contribuições de 250 cientistas e estudos já publicados, seguirá a linha dos quatro relatórios precedentes que detalham as ameaças relacionadas ao aquecimento.
 
Espera-se que também confirme a responsabilidade do homem, revise para cima a elevação do nível do mar e a intensidade de certos fenômenos extremos (ondas de calor, fortes chuvas) em algumas regiões, segundo uma versão provisória do resumo transmitida este verão aos delegados.
 
Segundo participantes nas discussões, esse resumo também abordará as possíveis razões da desaceleração observada há cerca de dez, 15 anos no aumento dos registros do termômetro. Para os climatologistas, essa pausa é aparente e provisória, e não questiona a tendência ao aquecimento em longo prazo.
 
Desde a segunda-feira, este "resumo para autoridades" está sendo aprovado parágrafo por parágrafo a portas fechadas. As discussões entre cientistas e delegados dos governos não têm "por objetivo transformar a ciência (...) deixar o texto o mais legível possível", lembrou um delegado que pediu o anonimato.
 
"Estas discussões podem ser vistas como o local onde se encontra a ciência, a política e a comunicação", avaliou Vanessa Bulkacz, encarregada de comunicação da Climate Action Network Europe, ONG presente em Estocolmo como observadora, assim como Greenpeace e Oxfam. 
 
"Transformar milhares de páginas de dados em um documento pertinente para as autoridades políticas é uma tarefa gigantesca. Depois, serão os governos que deverão usá-lo como trampolim", acrescentou.
 
Este ano o IPCC, questionado em 2010 por vários erros em seu relatório de 2007, revisou exaustivamente seus processos para não voltar a dar razão a ataques dos céticos. "Não conheço um documento que tenha sido submetido a este tipo de estudo minucioso e que tenha envolvido tantas pessoas com espírito crítico", lembrou esta semana um de seus encarregados, Thomas Stocker.