Até o final dos anos 1980, o brasileiro tinha apenas quatro marcas de automóveis para escolher: Chevrolet, Fiat, Ford e Volkswagen. E quando se pensava em eletrônicos, a lista também não era farta. Quem quisesse um videocassete deveria procurar um bom muambeiro da Ponte da Amizade. Essa pessoa também abastecia a vizinhança com toda sorte de quinquilharias eletrônicas, ora de primeira linha, ora das mais grotescas.

Nos últimos 30 anos o cenário mudou. O Brasil atraiu interesse de dezenas de fabricantes, chegou a ser quarto maior fabricante de automóveis do mundo, em 2010. Atraiu marcas de eletrônicos, de celulares a computadores, de videogames a televisores sofisticados.

Pandemia, dólar, cenário político e econômico e carga tributária aceleraram fechamento das linhas

No entanto, a crise econômica, a instabilidade política, a desvalorização do real e uma grossa pitada de Covid-19 resultaram numa receita indigesta que tem afugentado marcas do país. É como se o consumidor estivesse jogando baralho e ficando sem cartas. Depois de Mercedes-Benz, Ford e Audi encerrarem suas operações, a Sony decidiu suspender sua fabricação local. Agora, chegou a vez de a LG jogar a toalha, numa escala global, mas que atinge fortemente o Brasil.

O comunicado veio na última semana. A marca alega que acumula prejuízos há 23 trimestres, no mundo todo, o que se traduzem US$ 4,1 bilhões ao final de 2020. A empresa realmente decidiu deixar de lado o negócio de celulares, assim como já fizeram Nokia e Blackberry. Assim, a unidade de Taubaté (SP) será desativada, apesar de a LG garantir que continuará operando em outros segmentos. 

Depois de 101 anos, a Ford viu que era mais negócio atuar como importadora do que fabricar carros no Brasil

“Com a crescente competitividade global, bem como em razão dos prejuízos acumulados no segmento de smartphones de 23 trimestres consecutivos e perdas operacionais acumuladas, a empresa decidiu encerrar suas atividades de Celulares globalmente, o que resultará no encerramento desta produção na unidade de Taubaté/SP. De toda forma, mantendo o compromisso com os seus clientes de smartphones, a empresa permanece com as políticas de garantia deste produto, nos termos de cada um dos países onde foram comercializados. Apesar da decisão de encerramento da produção na Unidade mencionada, a LG informa que manterá a comercialização e a produção de outras linhas de negócios no Brasil, gerando empregos e investimentos, além de novas oportunidades ao mercado brasileiro”, explica a marca, por meio de comunicado oficial.

Fechamento da fábrica de telefones da LG se deve à falta de competitividade no mercado global de smartphones

O que muda?

O que muda para o consumidor? A curto prazo, nada. Nos três casos, as marcas devem cumprir com seus programas de garantia e assistência técnica, o que garante atendimento para reparos. 

No entanto, sempre que uma marca deixa o mercado, a competitividade diminui, o que abre espaço para outros concorrentes trabalharem com mais folga e ajustarem suas políticas de preços. 

A Ford hoje se dedica a importar carros com tíquete mais alto. Ela se prepara para lançar o Mustang Mach 1 e confirmou a chegada do Bronco Sport. Hoje, seu produto mais barato é a versão de entrada da Ranger, feita na Argentina, que beira os R$ 140 mil. Boa parte de sua gama atua numa faixa acima dos R$ 200 mil.

Ou seja, a marca do Oval Azul focou sua estratégia num nicho de maior valor agregado, em que o volume é menor, mas as margens são mais gordas. Para o consumidor que busca um compacto, a lista de opções se tornou mais escassa. Além do Ka e Ka Sedan, modelos como Nissan March e Citroën C3 deixaram de ser produzidos. Há um constante rumor de que VW irá sepultar Gol, Fox e Up, o que reduz a oferta de opções de acesso

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