Depois de adiar os desejos de consumo em 2015, em função da turbulência econômica, os brasileiros querem desengavetar os sonhos e realizá-los neste ano. A ideia, pelo menos a princípio, é virar a página e deixar o baixo astral para trás, mesmo com o nebuloso cenário econômico ainda sobre o país.

Pesquisa do Instituto Data Popular, especializado em mercados emergentes, aponta que nove em cada dez brasileiros reduziram o consumo em 2015, na comparação com 2014. Para este ano, entretanto, grande parte dos consumidores nem pensa em ver esse filme de novo.

De acordo com o levantamento, entre as pessoas que planejaram adquirir um imóvel no ano passado, 63% não realizaram o que foi projetado. Agora, em 2016, 35% acreditam que conseguirão alcançar o sonho. Viajar para fora do Brasil, ter um veículo novo na garagem, comprar computador e móveis para casa são desejos que foram adiados em 2015 e estão na lista dos para serem concretizados neste ano.

“O que a gente percebeu foi que os brasileiros não estão mais dispostos a adiar os desejos de consumo que não foram realizados no ano passado. Diante da crise, a população está confiante na própria capacidade de se virar e tem feito várias ações como forma de driblar as adversidades”, afirma o presidente do Data Popular, Renato Meirelles.

Segundo ele, entre as medidas para sair do atoleiro, mais da metade dos brasileiros vai buscar uma renda extra, enquanto 56% esperam fazer um financiamento para conseguir adquirir um bem durável. Pelo menos 62% estão fazendo economia em outros gastos para sobrar para os “mimos”.

Baladas e investimentos no guarda-roupa são atitudes que não pertencem mais à rotina da manicure Isabel Dias, 23 anos. Neste ano, finalmente, ela realizará o sonho de conhecer Buenos Aires, a capital do tango, dança da qual ela é fã número 1.

“Já queria ter feito essa viagem há muito tempo, mas não deu. Agora, cortei despesas supérfluas e estou conseguindo economizar. Já juntei um bom dinheiro. Está tudo programado e será maravilhoso”, diz ela, que já tem o passaporte carimbado para dezembro, em companhia de uma amiga.

Para o professor de economia do Ibmec Reginaldo Nogueira, após um período muito difícil, no qual os preços subiram, o desemprego aumentou, a renda encolheu, o crédito secou e a insegurança reinou, é natural que as pessoas tenham uma série de expectativas.

“Com o orçamento mensal pressionado, em 2015 as famílias adiaram viagens, troca de carro e reformas nas casas, e voltaram a comprar basicamente o essencial. E é normal quando a gente tem uma virada de ano na qual as pessoas carreguem aquela expectativa frustrada para que tenham que projetar isso para o ano seguinte”, avalia.

O problema é que, na prática, o roteiro econômico e político não mudou muito de um ano para o outro. E vai ser muito difícil que essas coisas aconteçam em 2016 para uma vasta parcela da população.

“Infelizmente, o ano que estamos entrando agora não será melhor do que o ano que passou. O país vai continuar com inflação alta e desemprego crescente, a renda das famílias vai seguir pressionada, o dólar vai permanecer alto, tornando as viagens internacionais difíceis, e o crédito vai continuar escasso e caro”, diz Nogueira.

Com os pés no chão, varejo e indústria observam o mercado

Se por um lado, a virada do ano deu uma injeção de ânimo em boa parte dos consumidores, conforme mostra a pesquisa do Data Popular, todo esse otimismo ainda não se reflete no humor de representantes do varejo e da indústria. O levantamento foi realizado entre os dias 4 e 12 de janeiro em 153 municípios de todos os estados do país.

“É muito alentador que uma pesquisa aponte que as pessoas pretendem comprar, e que só não o farão por falta de condições. A grande questão é se essa esperança vai se materializar”, diz o vice-presidente da Área Imobiliária do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais (Sinduscon-MG), José Francisco Couto de Araújo Cançado.

Segundo ele, o empresário está com os pés fincados na realidade. “O número de lançamentos deve ser ainda menor neste primeiro trimestre, na comparação com o mesmo período de 2015, quando já houve retração em relação a 2014. É um jogo que precisa ser estudado com cautela, por isso vamos esperar março ou abril para ver o andamento do mercado”, afirma.

Lançamentos

Somente em Belo Horizonte e Nova Lima, o lançamento das unidades residenciais caiu quase 50% entre janeiro e setembro de 2015, ante o ano anterior.

Paixão nacional, a compra do desejado automóvel também pode não ser desta vez.

“Para 2016, esperamos um ano difícil no primeiro semestre, com expectativa de melhora a partir de julho, dependendo do cenário político e econômico”, afirma o presidente do Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos de Minas Gerais (Sincodiv-MG), Camilo Lucian.

Em dezembro do ano passado, o mercado de veículos no Estado apresentou crescimento em todos os segmentos, depois de uma sequência de resultados desfavoráveis. Apesar do número positivo no mês do Natal, no acumulado do ano, a retração foi de 21,22%.

O comércio também está em compasso de espera. “As altas taxas de juros, o crédito escasso e a escalada da inflação são fatores muito ruins para o consumo. É preciso que a confiança esteja menos frágil”, diz a economista da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), Ana Paula Bastos.

Parte dos brasileiros deixou de realizar os sonhos em 2015