Com fortes críticas à gestão dos recursos hídricos no Brasil, tanto em âmbito federal como estadual, representantes da indústria cogitam a gestão privada da água – um bem público de domínio da União. A exemplo do que ocorre com os setores energético e de mineração, onde houve a concessão para exploração de bens públicos, o repasse dos serviços de água para o “mercado” aparece como uma possibilidade para os industriais.

“Quando o Estado não é bom gestor, nada dá certo. Assim como energia e minérios, agora pode ter concessão da água. Talvez esteja caminhando para isso”, afirmou a ex-diretora da Secretaria de Geologia, Mineração e Transformação Mineral do Ministério de Minas e Energia e sócia da RGS Consultoria, Maria José Gazzi Salum.

Ela participou como moderadora de um dos painéis do evento “Impactos das crises hídrica e energética na Mineração e Siderurgia”, promovida pela Associação Brasileira de Metalurgia e Mineração (ABM) em Belo Horizonte.

A secretária-executiva do Conselho de Empresários para Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Patrícia Boson, vê no modelo de Parceria Público-Privada (PPP) um caminho para que a iniciativa privada colabore com a gestão das águas, sendo que o Estado permanece ditando regras. A deficiência da Copasa foi lembrada por ela.

“As perdas (de água) na distribuição são de 40%. Imagine se nós, empresas, perdêssemos 40% de nossa produção, onde estaríamos: falidos. E como essa perda é subsidiada por nós, não há incentivo para redução”, observou.
Patricia Boson ressaltou que há outras formas, além da PPP, de se exigir do poder público respostas mais positivas na administração dos recursos hídricos. “Com participação nos comitês (de bacias hidrográficas) que possuem muito poder de decisão. Temos que levar o povo técnico para lá, porque hoje está dominado por ONGs que vão lá apenas atacar o usuário (de água)”, disse.

Racionamento

Os consultores de meio ambiente e sustentabilidade para a indústria da mineração também recomendam a seus clientes planos de contingenciamento e outras alternativas para o racionamento de água em 2016, mesmo que a Copasa sustente que isso não ocorrerá, como anunciou em 10 de agosto.

“As empresas de distribuição de água são de capital aberto com ações em bolsa. Elas vendem água. Imagine para onde vão as ações se falarem que não terá água pra vender? Temos que filtrar essas informações”, questionou Patricia, colocando em xeque o que disse publicamente a estatal.

Para ela, a crise não é hídrica, mas institucional. “Irresponsavelmente, a administração (estadual) pífia apostou em chuva para resolver o problema”, diz.

Procurada, a Copasa reafirmou, em nota, que não haverá racionamento em Belo Horizonte. “A Copasa garante que o risco de desabastecimento na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) está afastado – tendo em vista as obras em andamento de nova captação no Rio Paraopeba, e afirma que a água armazenada nos reservatórios do Sistema Paraopeba é suficiente para garantir o abastecimento de toda a população atendida por ele na RMBH”.