Uberaba – Nem 6%, como gostariam os agricultores e pecuaristas, nem 9%, como pleiteou o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. A taxa média de juros do campo vai superar a inflação e fechar em 8,75%, conforme uma fonte ligada à ministra da Agricultura, Kátia Abreu, que pediu que não fosse identificada. Apesar de ficar abaixo do que estimava Levy, o índice vai travar investimentos rurais, na avaliação de representantes do setor.

“Se esta taxa vigorar, o homem do campo vai fazer o arroz com feijão, o básico”, afirma o presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), Luiz Cláudio Paranhos. O fato de a agricultura responder por cerca de um terço do Produto Interno Bruto (PIB) nacional deveria ser suficiente para que o governo segurasse a taxa, conforme defende o presidente da ABCZ.

O índice será divulgado no Plano Safra Agrícola e Pecuário, o PAP 2015/16, que estava agendado para o próximo dia 19, mas foi adiado sem uma nova previsão. Os recursos para o crédito agrícola, ainda de acordo com a fonte, serão mantidos em R$ 156 bilhões, como na safra anterior. Os juros na última edição do Plano Safra giravam entre 4,5% e 6,5%.

Custeio x Investimento

Para o custeio da produção, a taxa ainda terá alguma aceitação, conforme afirma o secretário de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais, João Cruz. No entanto, para as linhas de investimento, cujos prazos de financiamento são maiores, a expectativa é a de que haja debandada do produtor.

“Fazer empréstimos de longo prazo a altas taxas não é vantajoso, principalmente quando acreditamos em uma melhora do cenário econômico, como é o nosso caso”, diz Cruz.

Na prática

As estimativas dos representantes do setor são comprovadas pelos produtores. De acordo com José de Castro Rodrigues Netto, proprietário da fazenda Santana da Serra, em Cajuru, interior de São Paulo, não há dúvidas de que com juros em 8,75%, muitos produtores deixarão de comprar máquinas e expandir as propriedades. Principalmente o pequeno produtor. “O pequeno será mais prejudicado, pois ele não tem escala na venda dos produtos”, afirma. Criador gir leiteiro, ele possui 500 cabeças de gado em um terreno de 500 hectares.

Joaquim Noronha, proprietário da fazenda Terra Vermelha, em Vargem Grande do Sul, interior de São Paulo, concorda. Com 700 cabeças de gir leiteiro, ele garante que não vai deixar de investir na produção, mas afirma que fará restrições pontuais. “Se eu precisar de financiamento para fazer alguma ampliação, vou deixar para o futuro”, lamenta.

Neste caso, os empregos que seriam gerados são empurrados para o futuro, assim como a produção industrial que seria impulsionada no caso da venda de máquinas. “Se eu precisar de um trator, não vou comprar agora. Não se esta taxa de 8,75% for aprovada. Certamente vou esperar a situação melhorar”.

Sobre o montante esperado a ser liberado, de R$ 156 milhões, o diretor da ABCZ e presidente da comissão de corte da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Antônio Pitangui de Salvo, afirma que é suficiente. “Neste caso não temos como reclamar. O valor é suficiente. O homem do campo teve facilidade no crédito na última safra e esperamos que continue assim. O problema é a taxa”, comenta.

 

Investimentos no campo podem ser travados caso taxa de juros atinja 8,75%

CRÍTICA – Luiz Cláudio Paranhos, presidente da ABCZ, diz que importância do agronegócio para o PIB brasileiro deveria ser suficiente para o governo segurar taxa de juros do campo (Foto: Divulgação/ABCZ)