A alta dos preços administrados, o aumento das tarifas de transporte e uma provável pressão sobre os preços dos alimentos por conta da crise hídrica devem contribuir para que a inflação estoure o teto da meta - de 6,5% - em 2015. A avaliação foi feita pelo economista da FGV/Ibre, André Braz, em coletiva para comentar os resultados do Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M), que acelerou de 0,62% em dezembro para 0,76% em janeiro.

"Para 2015, podemos esperar uma inflação acima do teto da meta. O quanto ainda é uma incógnita e vai depender de muitas questões, como o patamar de reajuste da energia, por exemplo", afirmou. Segundo o economista, a elevação da tarifa de energia - que pode ser de até 40% - terá efeitos indiretos que vão impactar nos preços ao longo do tempo.

Braz afirmou ainda que há uma expectativa que o setor de serviços perca fôlego com a alta nos juros, queda na atividade e um aumento do desemprego. No entanto, até o momento, o que se vê é a alta dos custos, o que faz com que os serviços ainda pressionem para um aumento da inflação no curto prazo. "O setor de serviços não deve mostrar uma tendência de desaceleração nos próximos meses. Ele vai mostrar na medida em que o mercado de trabalho começar a sofrer o efeito desse aumento dos juros e dos ajustes, isso pode se transformar em demissões o que limitam a demanda das famílias. Mas isso demora", afirmou.

IGP-M

Entre os três indicadores que compõem o IGP-M, o IPA-M desacelerou de avanço de 0,63% em dezembro para 0,56% em janeiro. Na mesma base de comparação, o IPC-M saiu de alta de 0,76% para 1,35%. Já o INCC-M acelerou de 0,25% para 0,70%, na margem. A variação acumulada do IGP-M nos 12 meses até janeiro é de 3,98%.

Braz explicou que a aceleração do IGP-M em janeiro teve uma pressão maior do IPC por uma concentração atípica de reajustes de tarifa de ônibus e energia elétrica, além da mensalidade escolar e do tradicional reajuste dos alimentos in natura. "No caso da mensalidade escolar e dos alimentos in natura já é algo esperado, mas a concentração dos ajustes nos preços da energia e no transporte tiveram um peso importante", afirmou, destacando que a taxa registrada pelo IPC em janeiro é a maior desde fevereiro de 2003.

Apesar de esses ajustes serem sazonais, Braz explica que eles influenciarão a inflação no fechamento do ano, pois a alta desses preços "não tem volta". "São aumentos permanentes. É inflação na veia", afirmou.

Ajustes

De acordo com Braz, os ajustes que estão sendo promovidos pelo governo estão indo na direção correta para combater a inflação. "Você não consegue conter a inflação sem ter efeitos negativos, mas às vezes é preciso dar um passo atrás para dar dois para frente", afirmou.

Segundo o economista, este ano existem momentos que é preciso fazer alguns sacrifícios "para colocar a casa em ordem". "E esse sacrifício pode ser uma elevação no desemprego", afirmou.

Braz diz ainda que o próprio governo deve reduzir o ritmo de investimentos e procura por serviços e isso deve impactar no emprego. "Eu vejo o governo como uma grande família que decidiu apertar os cintos e economizar. E essa família também vai ao mercado em busca de serviço. Se ela reduz essa procura ela acaba desempregando", exemplificou.

Para o economista, é difícil ter uma política de crescimento e de combate à inflação ao mesmo tempo. "Existem discursos econômicos que dizem que sim, mas isso só dá certo no papel e na prática as coisas são diferentes", avaliou.

2016

Para o ano que vem, Braz afirma que o cenário para a inflação deve "finalmente" ficar abaixo da média dos últimos três ou quatro anos. "Acho que em 2016, podemos ter algo em torno de 5,4% ou até abaixo disso", disse.

Segundo ele, esse movimento esperado para a queda da inflação será um reflexo da política fiscal e de uma demanda que estará desaquecida. "Além disso, não haverá os ajustes tão fortes dos administrados", disse.