Para que um par de alianças de 20 gramas de ouro seja produzido a partir da mina subterrânea Lamego, localizada em Sabará e operada pela AngloGold Ashanti, é necessário extrair cinco toneladas de minério. O trabalho é árduo. A expressão “tirar leite de pedra”, aliás, se encaixa bem. No caso, porém, o que se tira da pedra é ouro. E, como todo trabalho pesado, o custo operacional é alto. Despesas estas que começam a ser reduzidas. Para este ano, a meta de Lamego é diminuir em 7% os custos operacionais.

De um lado, a política vai ao encontro da estratégia sustentável da empresa, de fazer mais com menos. De outro, cria uma proteção contra as oscilações do mercado financeiro internacional, que podem jogar o preço do ouro por terra. Entre 5 de setembro de 2011 e sexta-feira passada foi registrada queda de 33% na cotação do ouro, que passou de US$ 1.895 a onça troy para US$ 1.277,08.

"Quando isso acontece, há uma verdadeira reviravolta nas empresas do setor. E é isso que tentamos evitar”, afirma o gerente da mina, Alexandre Heberle.

Para alcançar a meta de cortes de 7%, Lamego trabalha em várias frentes. Entre elas, o desenvolvimento de um software de gestão e controle das operações chamado de Smart Mine Underground, que funciona em caráter de piloto em Lamego.

O programa, criado em parceria com a empresa Devex, permite que toda a operação da mina seja acompanhada da superfície por meio de uma espécie de painel de controle.

“Por ele, sabemos onde estão todas as máquinas e funcionários. Se uma máquina precisa de outra, se elas estão posicionadas corretamente”, afirma o responsável pela implantação do programa, Luiz Fernando Zanotti. Na mina atuam 45 máquinas, entre caminhões, jumbos e carregadeiras, e 152 operadores (apenas dois são mulheres).

Economia

Além de ampliar a segurança, o sistema é capaz de habilitar e desabilitar à distância cada um dos 23 ventiladores instalados na mina. Eles são utilizados para fazer a renovação permanente do ar nos 600 metros de profundidade da mina. A possibilidade de ligar e desligar os equipamentos individualmente foi capaz de economizar R$ 40 mil mensais desde maio do ano passado, o equivalente a R$ 560 mil somados até junho deste ano.

Outro ponto que contribui para a redução dos custos da AngloGold Ashanti é a geração da própria energia. Por meio do Sistema Hidrelétrico de Rio de Peixe, são gerados anualmente 60 mil megawatts/hora, o suficiente para atender a uma cidade de 60 mil habitantes. O complexo é formado por sete Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e quatro barragens artificiais (Lagoa dos Ingleses, Miguelão, Codorna e Rio de Peixe), construídas na década de 30.

A mina

A vida útil da mina de Lamego, cujas operações foram iniciadas em setembro de 2004, está prevista para terminar em 2019. Estudos, segundo o gerente, tentam prolongar esse prazo para 2027. Cerca de R$ 16 milhões serão investidos de 2014 a 2016 no levantamento de dados e extração de amostras de minério para os estudos de viabilidade.

Hoje, é possível extrair 420 mil toneladas por ano de minério contendo ouro da lavra. O montante, que gera 1,5 tonelada de ouro, responde por 12% da exploração da AngloGold Ashanti em Minas Gerais.

Em Lamego, 321 empregados trabalham em três turnos ininterruptos. As explosões são realizadas três vezes ao dia, uma em cada turno, com o objetivo de abrir novos caminhos para extração do minério de ouro. A expectativa é a de que seja aberto um nível (que também podemos chamar de um andar) por ano. Em metros lineares, serão abertos mais de três mil metros a cada 12 meses.
 
Ouro que brota a 600 metros abaixo do chão
 
Antes de começar a descer a mina de Lamego, em Sabará, a assessora de imprensa da AngloGold Ashanti, Daniela Soares, pergunta se eu ou o fotógrafo Eugênio Moraes[/LEAD], temos problemas com ambientes fechados. “Infelizmente, algumas pessoas descobrem um medo enorme quando começam a descer”, diz, delicadamente. Eugênio responde prontamente que não. Ele já desceu outras minas. Eu sigo no embalo e também nego, mas fico receosa. Em pouco tempo, a preocupação dá lugar a um misto de deslumbramento e excesso de informações.

A descida, feita em caminhonetes, é lenta e a inclinação, pequena. Com rampas quase imperceptíveis, você mal se dá conta de que está a 300 metros abaixo do chão (são 600 metros no total).

Descemos por cavas (aberturas de mina) de cinco metros de largura por cinco metros de altura. As rochas que nos cercam parecem ter sido polidas de tão lisas. Quase não há iluminação, exceto pelos faróis dos dois carros que levam nosso grupo, composto por representantes da empresa, e dos caminhões e carregadeiras.

Os carros param. Saltamos. A quantidade de equipamentos de segurança (roupa, máscara, máscara de emergência, óculos, bota), somada ao aparato jornalístico (bloco, caneta e gravador), quase me impede de andar. O ambiente é úmido para que não haja suspensão de partículas. O chão fica encharcado e, às vezes, é difícil andar. A bota agarra na lama. Devido ao forte sistema de ventilação, a temperatura é agradável, facilitando um pouco as coisas.

Os carros ficam para trás e as lanternas dos capacetes são a nossa única fonte de eletricidade. Jogo a luz no teto e fico maravilhada. Milhões de pontos dourados reluzem. O gerente da mina, Alexandre Heberle, logo avisa: “esse dourado forte é o famoso ouro de tolo, Tatiana. Não é ouro de verdade, é pirita”, diz. O ouro, conforme explica, são os pontos mais finos e quase prateados, que também estão por toda parte.

Visitamos a mina por quase duas horas. Conhecemos salas de emergência, maquinário controlado remotamente. Presenciamos a extração do minério, o carregamento dos caminhões. Depois de conhecermos uma das principais riquezas do Estado, concluímos que Minas Gerais é fantástico. Até debaixo da terra.