O tom alarmista adotado pela imprensa acerca da nota do Ministério de Minas e Energia (MME) divulgada na sexta-feira (15) –na qual o governo admite que “o sistema elétrico está atravessando uma situação conjuntural desfavorável em termos climáticos”– não é corroborado por especialistas do setor energético. De acordo com representantes do sistema elétrico brasileiro, embora os riscos não estejam inteiramente afastados, eles são pequenos e a possibilidade de racionamento, improvável.
 
Conforme afirma o coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nivalde de Castro, não existe sistema elétrico livre de riscos de desabastecimento. No caso do Brasil, em que a geração de energia é baseada em fontes hidráulicas, a segurança do sistema fica dependente das chuvas. Afinal, 65% da matriz energética brasileira é hidrelétrica. “Se não chover, os reservatórios não enchem. Isso não tem como mudar”, afirma Castro.
 
Atualmente, o risco de déficit de energia no país gira em torno de 18%, segundo aponta o new wave, sistema de informática utilizado pelo Operador Nacional do Sistema (ONS). O índice é o mesmo das últimas semanas. Conforme explica o presidente da CMU Comercializadora de Energia, Walter Fróes, a relação ainda é baixa. “A possibilidade de que haja racionamento é de 1 para 4. Baixíssima”, diz. 
No entanto, ele critica o posicionamento adotado com frequência pelo governo no passado, quando o Ministro de Minas e Energia (MME), Edison Lobão, foi categórico ao negar que houvesse um risco de racionamento. “O risco sempre existe. É impossível que ele seja zero”, comenta Fróes. 
 
Segurança máxima
 
Para minimizar as possibilidades de um apagão, o ideal, segundo o diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético (Ilumina) Roberto D’araújo, é que o nível dos reservatórios do Sudeste e do Centro Oeste fique acima de 60%. As regiões são responsáveis por mais de 60% da energia gerada no país. Grande parte das usinas estão em Minas Gerais, motivo pelo qual o Estado é chamado de caixa d´água do Brasil. 
 
Apesar disso, hoje a água armazenada nos reservatórios da região atinge 35,89% da capacidade de armazenamento. Esse índice está dez pontos percentuais abaixo dos 45,48% registrados no mês passado. No entanto, é 7 pontos percentuais superior aos 28,86 verificados em dezembro. “No ano passado choveu no período seco mais do que a média histórica. Isso indica que o ciclo hidrológico do país esteja mudando”, afirma o coordenador-geral do Gesel. 
 
 
O período úmido vai de outubro a abril. Por enquanto, choveu menos do que o necessário para encher os reservatórios, que estão pressionados ainda pelo forte calor. Vale lembrar que, com a temperatura nas alturas, os equipamentos de ar-condicionados são acionados em massa, aumentando a demanda por energia. 
 
O motivo para as chuvas fracas, segundo a coordenadora de Climatologia da PUCMinas Tempo Clima, Adma Raia, é uma forte massa de ar quente e seco que está impedindo a passagem das frente frias para o Sudeste e o Centro-Oeste, necessárias para as chuvas. Para o futuro próximo, no entanto, as notícias são boas. “Uma frente fria já está sobre São Paulo. Possivelmente ela irá dissipar a massa de ar quente, fazendo com que chova no Sudeste, principalmente Sul de Minas e no Triângulo Mineiro”, diz Adma.
 
Embora ela afirme que a quantidade de água ainda não seja suficiente para solucionar o problema dos reservatórios, a dissipação desta massa de ar quente permite que outras frentes frias cheguem ao Sudeste. “Na segunda quinzena de fevereiro as chuvas devem se intensificar na região”, prevê. 
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