As usinas eólicas serão o grande destaque do próximo leilão do setor energético, marcado para o dia 18. Os empreendimentos movidos a vento representam 88,8 % das propostas apresentadas.

Os especialistas comemoram a investida das empresas de energia na geração alternativa, que pode ser a saída para a aguardada saturação do atual modelo baseado na construção de usinas hidrelétricas com baixo volume de reservatórios.

No entanto, criticam que o Brasil “perdeu o timing”, já que essa aposta na energia eólica vivia com atraso de anos.

“O Brasil deveria ter apostado no segmento das eólicas há 10 anos. A defasagem é alta”, afirma o consultor de energia Roberto D’araújo.

Complementar

Atualmente, o Brasil possui 103 empreendimentos eólicos, que são responsáveis por gerar 2,1 gigawatts (GW) de energia. O ideal, para manter um sistema eólico capaz de funcionar de maneira complementar ao hidrelétrico, seria uma capacidade instalada de 20 GW, ou seja, 10 vezes mais que o registrado hoje, de acordo com D’araújo,.
A necessidade de se investir nas eólicas é reflexo da mudança no modelo das novas usinas hidrelétricas, a maioria baseada em sistemas a fio d’água, sem reservatórios. Essas usinas armazenam pouca água e ficam impossibilitadas de manter a carga nas épocas de estiagem ou de aumentar a geração quando exigido pela demanda.

Capacidade

Hoje, a capacidade de armazenagem das usinas brasileiras é equivalente a 5,16 meses, o que é considerado pouco para garantir segurança ao sistema. Há 10 anos, essa capacidade era de seis meses.
“Para aumentarmos a capacidade de armazenamento teríamos que construir reservatórios para receberem (um volume de água) equivalente a dois rios São Francisco, o que é impossível”, diz o consultor. E é aí que entram as eólicas.

 Projetos inscritos representarão mais 10 mil megawatts

 A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) habilitou tecnicamente 429 projetos de geração de energia elétrica para o próximo leilão (A-3/2013)
Estes projetos representam uma potência instalada somada de 10.460 MW.
Os projetos de geração de energia eólica apresenta os maiores números entre as fontes participantes: são 381 empreendimentos habilitados, totalizando uma capacidade de 9.191 megawatts.

Projetos aprovados não saíram do papel

As usinas eólicas são a solução para a perenidade do sistema energético brasileiro, que hoje tem carga de pouco mais de 500 terawatts (TW/h) de energia, com capacidade de armazenagem de 220 TW/h. “A capacidade das hidrelétricas está diminuindo e as outras fontes não estão dando conta”, comenta o consultor do setor energético Roberto D’araújo.

Para o médio prazo, segundo levantamento da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), está prevista a construção de 93 usinas movidas a vento, capazes de gerar 2,3 gigawatts, pouco mais do que o dobro da potência instalada hoje. O problema maior é o que já foi outorgado de 1998 até hoje, mas não saiu do papel: 5 GW, um quarto do necessário.

“Além de não termos estrutura, estamos operando o sistema predatoriamente. Não dá para culpar São Pedro”, diz.

Sistema onerado

Ele faz referência à forma como o governo federal vem despachando as usinas, utilizando os reservatórios e economizando as térmicas.
Na avaliação de D’araújo, o governo segurou a mão com demasia na hora de ligar as térmicas com o objetivo de não encarecer a conta do consumidor. Para ele, isso foi um erro.

Ao evitar ligar as usinas que demandam combustíveis caros (óleo, carvão, gás e diesel), o sistema foi onerado, gastando a água que havia sido armazenada e empurrando um problema para o futuro. “O ideal era que as térmicas tivessem ficado mais tempo ligadas. Como não ficaram, agora pagamos a conta”, diz.

Apesar das críticas, em setembro o Operador Nacional do Sistema (ONS) aumentou o despacho de térmicas para aumentar a confiabilidade do sistema.