O problema dos lixões voltou às páginas deste jornal, nesta semana. Uma pesquisa feita pela Fundação João Pinheiro, encomendada pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese), enriqueceu a pauta. Os pesquisadores estiveram em 114 municípios. Em 72, encontraram catadores de material reciclável nos lixões e 557 foram entrevistados.

As carências foram identificadas no estudo, conforme a subsecretária de Direitos Humanos, Carmen Rocha. “Agora temos que pensar nas possibilidades que podem ser oferecidas de acordo com as políticas públicas disponíveis”, acrescentou. Se não ficar apenas no plano das boas intenções, pode resolver problemas. Entre eles, o desconhecimento de autoridades municipais sobre a importância social dos que passam o dia no lixão, pondo em risco sua saúde, para extrair dali materiais jogados fora e que servem de matéria-prima para inúmeras indústrias.

Parece equivocada, por exemplo, a decisão da Justiça de Conselheiro Lafaiete que obrigou a prefeitura a isolar o lixão da cidade e jogou na clandestinidade os catadores de material reciclável. Muitos passaram a burlar o trabalho dos vigilantes da prefeitura, para continuarem trabalhando. Um dos entrevistados não entende por que não pode recolher, no lixão, garrafas PET e pedaços de papel, o que lhe dá uma renda mensal de cerca de R$ 1 mil. “Se necessário, vou para outro lixão ou para a rua mesmo, atrás desse ouro que é jogado fora”, afirmou.

É lamentável que autoridades não possam, como esse pobre homem, enxergar ouro no lixão. O homem que ali trabalha e que causa pena a tantos, é muito mais que “O bicho” daquele poema famoso de Manuel Bandeira, que viu um animal catando comida entre os detritos e engolindo-a com voracidade. “O bicho, meu Deus, era um homem.” A cena, que horrorizou o poeta no passado, hoje não mais espanta, tantos são os que buscam seu sustento no aproveitamento do lixo – e fazem muito bem.

Sem eles, os recursos naturais se esgotariam na terra muito mais rapidamente. Mesmo com eles, a cota de recursos naturais que a natureza poderia oferecer ao longo de 2013 se esgotou no dia 20 de agosto. O cálculo foi divulgado pela Global Footprint Network, uma rede ecológica internacional.

O que se espera das autoridades é que elas ofereçam apoio a esses trabalhadores dos lixões, criando alternativas para que eles continuem no seu trabalho, tão útil a todos nós. Com menos riscos e mais dignidade.