É impossível não perceber o intenso noticiário em torno da alta da inflação, assunto que tem pautado a imprensa nos últimos dias. Mesmo antes de se verificar, na última quarta-feira (10), o estouro da meta da inflação, quando se considera no cálculo o período de 12 meses encerrado em março deste ano.

A surpresa foi apenas na antecipação do estouro. Pois o Banco Central, ao divulgar no dia 29 de março o relatório trimestral de inflação, previu o estouro da meta no segundo trimestre e, em seguida, desaceleração, encerrando o ano em 5,7%. Essa antecipação parece ter animado os que contam com o aumento da inflação para voltar a ganhar dinheiro com juros mais elevados sobre os empréstimos ao governo remunerados pela Taxa Selic.

O que mereceu destaque bem menor, no noticiário, foi o acerto do BC em relação ao aumento menor da taxa de inflação, que já ocorreu em março. O IPCA, índice oficial de inflação, tinha subido 0,6% em fevereiro e ficou em 0,47% no mês passado. É um dado que merece atenção, pois favorece a maioria dos contribuintes e consumidores, e não somente ao governo que, endividado, luta por manter baixa a taxa de juros.

O Banco Central havia previsto que, ao estourar a meta, a inflação de 12 meses chegaria a 6,7%. E chegou a 6,59% em março, o suficiente para entusiasmar quem torce contra o governo Dilma Rousseff. É importante que o avanço da inflação não vá além dessa marca.

O ex-ministro da Fazenda Delfim Netto observa que o Brasil jamais teve uma inflação civilizada, de 2% a 3% ao ano, no período iniciado com o Plano Real. Nos últimos 17 anos, a taxa média da inflação foi da ordem de 7,4%, e de 1,8% a do crescimento do PIB. Ambas insatisfatórias. O grande risco é que voltemos a ter uma indexação de preços provocada, em boa parte, pela expectativa de inflação elevada, alerta Delfim Netto: “A dramática experiência escondida em nosso subconsciente acabará acordando o remédio fácil e enganador de aumentar a indexação das rendas dos agentes”.

Mais importante para evitar que isso ocorra é frear o movimento de elevação do salário mínimo acima do aumento da produtividade do trabalho e da capacidade de atendimento da demanda. É mais relevante do que aumentar a Taxa Selic. Em seu artigo da última sexta-feira (12), Luís Nassif foi claro: “Se elevar a Selic, o BC terá piscado”. Ou seja, demonstrará fraqueza, jogando por terra o trabalho iniciado em 2011 para desarmar a armadilha dos juros altos.