A temporada do verão pode trazer impactos negativos para o funcionamento dos rins. O alerta é da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) em campanha em suas redes sociais, que vale para todo o ano de 2022, com destaque para 10 de março, quando se comemora o Dia Mundial do Rim. O Brasil é líder global da campanha de prevenção primária à doença renal.

Em entrevista nesta quinta-feira (6) à Agência Brasil, a nefrologista Andrea Pio de Abreu, secretária-geral da SBN, explica que na estação mais quente do ano há uma maior necessidade de se ingerir líquidos. "Com o calor, a gente sua mais. E é muito perigoso que as pessoas acabem não aumentando a quantidade da ingestão líquida, de preferência água e bebidas naturais, apesar de estarem suando muito".

Entre pacientes idosos e pediátricos, muitas vezes, ocorre a desidratação e a pessoa nem percebe. O ativador da sede, que fica no cérebro, pode não apontar a necessidade de líquido. Acaba sendo necessário que a pessoa mantenha controle constante da ingestão suficiente de líquidos. Por outro lado, muitos indivíduos acham, mesmo não estando nessa faixa etária, que devem beber só quando estão com sede. "A sede é um sinal de alarme, quando a pessoa já está desidratada", alerta a especialista.

Como os brasileiros moram em regiões distintas, desenvolvem atividades físicas diferentes e têm pesos variados, a dica da nefrologista é observar a coloração da urina. O ideal é que ela esteja amarelo clara. "Se tiver amarelo escuro, é sinal de que a pessoa está bebendo pouco líquido. Os rins sofrem com a desidratação. Esse é o primeiro ponto que a gente deve ter cuidado", explica.

Infecção
Outro problema associado aos rins é que o calor pode aumentar o risco de infecção urinária, principalmente em mulheres. Isso acontece porque, geralmente, a anatomia feminina propicia um maior risco de infecção urinária em comparação com a dos homens.

Segundo Andrea Pio, no verão é muito frequente que as mulheres usem roupas íntimas úmidas, como biquínis e mesmo calcinhas, que ficam úmidas pelo suor. Isso, esclarece a médica, pode propiciar o surgimento de micro-organismos. Somado à falta de ingestão de água que pode deixar a urina concentrada, muitas mulheres adiam a ida ao banheiro. "Muitas mulheres não vão ao banheiro constantemente para urinar, o que favorece também o crescimento de micro-organismos".

A médica diz ainda que pacientes que já têm outros fatores de risco, podem ter complicações relacionadas à hidratação. "Os cálculos renais envolvem vários fatores de risco. Um deles é a diminuição da ingestão de líquidos".

Andrea Pio salienta, contudo, que nem todas as pessoas que têm ingestão insuficiente de líquidos no verão terão cálculo renal. Do mesmo modo, nem todas que bebem bastante água na estação mais quente estão livres do problema. "Mas para aquelas pessoas que têm outros fatores de risco, o fato de não beber água, sobretudo no verão, quando a temperatura está mais quente, faz com que possam aumentar a probabilidade de ter cálculo renal".

Para a nefrologista Lygia Vieira, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), as pessoas devem ficar atentas também ao sintoma de cólica renal, que é mais comum nessa estação do ano.

"Nessa época, o corpo desidrata mais facilmente e a ingestão de líquido nem sempre acompanha a necessidade de reposição adequada. Dessa maneira, a urina fica mais concentrada e propicia a formação de cálculos. Também no período de festas e férias, há maior consumo de bebidas alcoólicas, que inibe o hormônio antidiurético, estimulando assim a diurese (produção de urina), tendendo à desidratação", explica. Ela recomenda que o serviço de emergência deve ser procurado nos quadros de dor lombar com ou sem hematúria (sangue na urina).

Diálise
Dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia mostram que cerca de 145 mil pacientes estão fazendo diálise no Brasil, sendo 92,7% deles em hemodiálise. Para essa população, a médica  Lygia Vieira chama a atenção para sintomas como falta de ar, aumento de edemas (inchaço) e ganho de peso relacionados ao aumento da ingestão de líquidos.

Para a nefrologista Andrea Pio de Abreu, de modo geral, a orientação é que todo mundo beba líquidos de forma adequada, observe a produção e secreção de urina pelo rim e aumente a ingestão de líquidos no verão. Ela ressalta, entretanto, que as pessoas que fazem diálise precisam consultar um médico sobre a quantidade de líquido a ser ingerida, porque alguns pacientes necessitam urinar mais na diálise e outros, não.

A secretária geral da SBN diz que os pacientes que não urinam podem até ter mais sede no verão, só que não podem beber muita água. Eles precisam conversar com o nefrologista para que recomende a quantidade necessária de líquido, levando em consideração a quantidade de diurese que eles produzem. "Isso é muito importante entre os pacientes que já estão em diálise", recomenda.

A médica afirma que os pacientes que não chegaram ainda à diálise, mas têm doença renal crônica avançada, também precisam de orientação do nefrologista para saber quanto líquido devem ingerir. "O médico vai pedir para medir a quantidade de urina do paciente, vai avaliar questões como edema, dar suporte nutricional adequado".

Os líquidos incluem não só água potável, mas sucos, sorvetes, chás, café, açaí, gelatinas, refrigerantes, sopas.

Sal
Em relação ao sal, a recomendação é que o consumo seja metade do que o brasileiro consome, que é de 11 a 12 g por dia. "Isso é muito. O problema do sal é que ele tem vários impactos. Um deles é sobre a pressão arterial. Ele faz com que haja maior retenção de água no organismo. Com isso, há risco maior de aumentar a pressão arterial. Faz também com que pacientes que já tenham doença renal avançada inchem mais, retenham mais líquido dentro do corpo", explica Andrea.

Pacientes que necessitam de quantidade de líquido individualizada, como pessoas com insuficiência cardíaca ou pacientes com doença renal avançada, devem ter cuidado com o consumo de comida industrializada, rica em sal.

O que acontece é que a sede aumenta e qualquer líquido que vão ingerir será retido no organismo devido ao sal. Andrea alerta que esse quadro aumenta a chance de edemas. Ela alerta que 70% do sal que as pessoas comem estão escondidos nos produtos industrializados. "Está presente, inclusive, em alimentos doces da indústria, como conservantes".

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