A possibilidade do retomada do pagamento do auxílio-emergencial pelo governo federal, para mitigar os efeitos econômicos da pandemia, traz um alento a cerca de 5,3 milhões de mineiros que recebiam o benefício, em 2020, e que agora passam dificuldades para arcar com as contas do dia a dia. 

De acordo com a PNAD- Covid, pesquisa do IBGE que mensura os impactos da doença na rotina dos brasileiros, quatro a cada dez famílias do Estado tinham pelo menos um integrante recebendo o auxílio, no ano passado. 

O governo já sinalizou que encaminhará ao Congresso proposta para reedição de um “coronavoucher”, a ser pago a partir de março. O valor deve ficar entre R$ 200 e R$ 250 ao mês, em quatro parcelas – menos da metade da quantia inicial fixada em 2020, de R$ 600 –, beneficiando um total de 40 milhões de pessoas em todo o país.

Ontem, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), afirmou que espera que o governo federal envie o projeto ainda nesta semana. “Há uma tendência muito clara no Congresso da importância para o país da aprovação do novo auxílio”, destacou Pacheco.

As projeções do Palácio do Planalto e da equipe do ministro Paulo Guedes são de que o benefício custe R$ 40 bilhões ao erário. Para o economista Hélio Bern, tal impacto tem que ser pesado. “Já temos um grande déficit nas contas públicas e o auxílio vai ampliá-lo. No entanto, o benefício é algo que não pode deixar de ser repassado às pessoas de baixa renda, neste momento”, explica o economista.

São justamente essas pessoas as mais ansiosas pelo retorno do auxílio. Casados, Vanderlúcio Cardoso Pereira, de 41 anos, e Nathália Maria Borges dos Santos, de 31 anos, ambos desempregados, dependiam do auxílio para sustentar os três filhos, até dezembro.
Sem o dinheiro, as contas se acumulam e até mesmo a compra de alimentos fica comprometida. “Sem ocupação e auxílio fica difícil para garantir até a comida. Se o pagamento voltar, será em boa hora”, afirma a dona de casa.

Outra mineira que se beneficiaria do possível retorno do auxílio-emergencial é a auxiliar de cozinha Greciane Keli Felix, de 36 anos. Desempregada desde outubro, ela diz que usava o auxílio para fazer as compras do mês. “Temos dois filhos, um de 4 e outro de 9 anos, e o dinheiro ajudava na alimentação. Sem ele, está tudo mais difícil”, destaca Felix.

Para a economista Mafalda Ruivo Valente, das faculdades Promove, a retomada do “coronavoucher”, mesmo em valores mais baixos que os concedidos no ano passado, pode garantir a segurança alimentar de milhares de famílias mineiras. “Ao contrário do que aconteceu em 2020, quando muitos usaram o benefício para comprar eletrodomésticos, fazer obras, por exemplo, desta vez o auxílio vai servir para assegurar ao menos a comida na mesa. É uma questão de sobrevivência”, explica Valente.

Ganho para os ‘invisíveis informais’ seria pouco ou nulo

A boa notícia de que o governo federal e o Congresso estariam prestes a aprovar a reedição do auxílio-emergencial ganhou um triste contraste, principalmente se o benefício mensal, em quatro parcelas, for de R$ 200, como alguns especulam. 

Estudo divulgado ontem pelo Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira, ligado à Fundação Getulio Vargas (FGVcemif), aponta que, caso os números da pandemia continuem ruins ou piorem, as perdas dos trabalhadores chamados de “invisíveis informais” seriam pouco ou nada compensadas pelo referido valor.

Em Minas, por exemplo, com R$ 200 de “coronavoucher”, os invisíveis informais – pessoas de baixíssima renda e que usualmente não recebem Bolsa Família ou benefício de prestação continuada do governo federal, mas estão credenciadas para o auxílio-emergencial – teriam “ganho de renda” praticamente nulo. Já a perda de rendimentos para essa categoria seguiria em torno de 30% sem o benefício, em relação ao período pré-pandemia..

Mesmo com o auxílio indo a R$ 250 – outra possibilidade aventada em Brasília –, conforme o estudo, a renda dos invisíveis informais ficaria bem distante de níveis atingidos no ano passado, quando a ajuda começou em R$ 600, em abril, e terminou em R$ 300 mensais, em dezembro. O ganho de renda seria de apenas 7% para esse público. 

“O auxílio emergencial é fundamental nesse momento em que a evolução da pandemia é desfavorável, com a configuração de uma segunda onda, e ainda diante da lentidão na implementação de plano nacional de imunização, sobretudo pela escassez de vacinas” destaca o coordenador do estudo, Lauro Gonzalez. “Nesse cenário, as políticas públicas são fundamentais para mitigar os efeitos da crise para a população mais vulnerável”, completa.

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