Paralelamente à escalada dos números de infectados e mortos, os efeitos da pandemia da Covid-19 sobre a economia ganham, a cada dia, contornos mais desanimadores. Dados divulgados ontem pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostram que, em apenas sete semanas, de 15 de março a 2 de maio, a queda de faturamento do segmento varejista em Minas ultrapassou R$ 10 bilhões (R$ 10,03 bi). 

No país, que acumulou perdas de R$ 124,7 bi, o prejuízo mineiro foi o segundo pior, atrás apenas do paulista (R$ 38,86 bi). Ainda sobre o comércio varejista, pesquisa divulgada ontem pelo IBGE aponta que, só em março, quando a doença aportou no Brasil, a atividade apresentou recuo de 2,5%. Em Minas, a queda foi de 2,1%. 

Março, segundo o instituto, foi o pior mês para o setor desde 2003 e a expectativa para abril e maio é de crescimento bem maior no rombo do segmento varejista, tendo em vista o incremento, ao longo desses meses, das medidas para barrar a propagação do novo coronavírus, como as limitações ainda em vigor ao funcionamento do comércio não essencial – caso de Belo Horizonte. 

“Junto com a deterioração pela inviabilidade de operação do comércio, houve alteração significativa nos hábitos do consumidor, que passou a priorizar mais a aquisição de bens de primeira necessidade”, afirma o economista da Federação do Comércio de Minas (Fecomércio-MG), Guilherme Almeida. 

“Some-se a isso o fenômeno da postergação do consumo, já que ninguém se sente seguro para fazer determinados gastos agora ou a prazo, e o que temos é um cenário bem pior para as pesquisas seguintes”, completou.

Quanto aos dados do IBGE, referentes a março, Almeida lembra que a incorporação de resultados dos segmentos automotivo (-36,4%) e de materiais de construção (-17,1%), não levados em contra no estudo de “varejo restrito” feito pelo instituto, produz retração maior ainda nos indicadores. “No varejo ampliado, como chamamos esse cálculo, a redução de faturamento no país chega a 13,7% e, em Minas, a 8,7%”, disse.

Essenciais
O que evitou um tombo ainda mais feio, segundo o economista, foi o aumento de vendas dos segmentos de produtos essenciais, no Estado e em todo o país. Um dos destaques foi para hiper e supermercados (alta de 14,6% no Brasil e 4,6% em Minas), ramo no qual observou-se a elevação na busca por mercadorias para estocagem, no início da pandemia. 

Em Minas, ainda houve variação positiva nas compras de artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos (15,3%). Por outro lado, as lojas de tecidos, vestuário e calçados amargaram as maiores perdas no primeiro mês de pandemia, bem como ramos especializados na comercialização de bens de consumo duráveis, que registraram quedas mensais históricas em março.

Crise do novo coronavírus leva milhões de empregos à UTI

O desemprego, considerado um dos maiores danos da Covid-19 à economia, já é uma realidade para milhões de pessoas no Estado, no país e no mundo. No comércio, por exemplo, patrões se veem obrigados a reduzir a folha para compensar as portas fechadas e a falta de liquidez nos negócios. 

Segundo o estudo da CNC, a crise tem, de fato, potencial para eliminar cerca de 2,4 milhões de postos formais de trabalho no setor – que emprega 12 milhões de brasileiros – em um intervalo de até três meses. “A concretização desse cenário, no entanto, dependerá de como as empresas do setor vão reagir às medidas anunciadas pelo governo e, em última instância, à própria evolução da pandemia nas próximas semanas”, avaliou o presidente da entidade, José Roberto Tadros.

Em Minas, não há estimativa sobre o total de pessoas que já perderam vagas ou que possam perdê-las por causa do isolamento social. Mas o estrago deve se enorme caso não haja, logo, condições satisfatórias para a retomada do comércio. Só na capital, são 1,4 milhão de trabalhadores vivenciando tal expectativa. 

“Não temos como estimar as dispensas porque o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do governo federal, está sem atualização desde o final do ano passado, mas há, sim, risco de perda de muitos empregos no setor”, afirma Ana Paula Bastos, economista da Câmara de Dirigentes Lojistas da capital (CDL-BH). 

Ela destaca, contudo, aspectos que podem ajudar empresários e colaboradores a passar de maneira menos traumática pela crise. “É preciso definir parâmetros para uma volta segura e gradual do comércio, respeitando a questão da saúde, claro, e é preciso que o país vença a crise política para gerar confiança tanto externa quanto internamente”, afirmou.

Por outro lado, Ana Paula lembra a necessidade urgente de que medidas já anunciadas, como as que tratam da oferta de crédito em condições especiais a micro e pequenos empreendedores, sejam efetivadas. 

“O crédito existe, mas está represado. O dinheiro não chega na ponta em razão da burocracia, que precisa ser combatida, e de custos ainda altos para quem os procura”, ressaltou ela, lembrando que a CDL-BH lançou, em abril, uma campanha para que bancos emprestem a “juro zero” aos lojistas, dando-lhes fôlego para enfrentar a crise.

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