A Fundação João Pinheiro (FJP) cancelou as aulas nesta terça-feira (30), um dia depois da publicação de um vídeo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) no Youtube, em que ele cita, nominalmente, oito professores da instituição e atribui a eles o ensinamento da “doutrina comunista”. A FJP informou que vai acionar o Ministério Público (MP). O vídeo, segundo a assessoria de Bolsonaro, foi gravado "há muito tempo". 

De acordo com a assessoria de imprensa da instituição, cinco turmas e 184 alunos ficaram sem aulas. Por meio de uma nota de repúdio, a FJP afirmou que "a ocorrência está sendo registrada no Ministério Público e providências judiciais estão sendo tomadas na tentativa de apurar o fato”.

No vídeo, após citar os nomes dos professores, Bolsonaro afirma que ele é muito melhor do que a “ideologia” ensinada pelos docentes. “Se nós vivêssemos no regime que vocês defendem, vocês não estariam vendo esse vídeo nesse aparelho maravilhoso que não é fabricado na Coreia do Norte e nem em Cuba. Caiam na real, parem de se enganar a si mesmos. Agindo dessa maneira, vocês não só serão mais respeitados na escola, bem como nós poderemos trabalhar por um Brasil melhor. Podem não concordar comigo, mas, na maioria das coisas eu sou muito melhor do que aquilo que vocês ensinam. Melhor do que esses países que pregam a ideologia que vocês ensinam (sic)”, diz.

Fabrício Augusto de Oliveira, ex-subsecretário da Fazenda do governo Itamar Franco e ex-membro e pesquisador da Fundação João Pinheiro por duas décadas, rechaçou a atitude de Bolsonaro. Segundo o especialista em gestão pública, a pluralidade nas instituições é de extrema importância para a formação do pensamento crítico. 

“Pensar diferente faz parte da democracia. O pensamento único é marca de regimes autoritários. É um absurdo completo, um despropósito, criticar professores que se dedicam à docência. Vejo isso como um ato policialesco, típico de regimes autoritários, que vai contra a sociedade democrática”, rechaçou o especialista.

Em outro vídeo também postado no Youtube, Bolsonaro pede que os alunos filmem e gravem os professores que pregam a “ideologia”. “A orientação que eu dou a toda a garotada do Brasil é para filmar o que acontece nas salas de aulas e divulgar isso daí. Seus pais e adultos têm o direito de saber o que esses professores ensinam”, diz. 

No Sul

O Ministério Público Federal (MPF) abriu inquérito para apurar suposta intimidação aos professores por parte da deputada estadual eleita por Santa Catarina Ana Carolina Capagnolo (PSL), de 28 anos. Ela ficou famosa por pedir que os alunos expusessem os professores que “ensinassem a doutrinação comunista” em sala de aula. A reportagem não conseguiu contato com a deputada.

Nota FJP