O Produto Interno Bruto (PIB) de 2015 ainda não foi divulgado, mas as projeções atestam que o país chegou ao fundo do poço de tal forma que só será possível começar a sair de lá em 2017 e, mesmo assim, com crescimento zero. Segundo prévia do PIB divulgada nessa quinta (18) pelo Banco Central, o chamado Índice de Atividade Econômica (IBC-BR), 2015 encerrou com o PIB no vermelho, com recuo de 4,1%. Também nessa quinta (18), relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontou que em 2016 a economia derreterá mais 4%.

No caso do IBC-BR, caso o índice se confirme na divulgação oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no dia 3 de março, será o pior resultado dos últimos 25 anos.

Vale ressaltar que as metodologias são diferentes. “A previsão é a de que o PIB do IBGE fique entre -3% e -3,7%. Acredito que bata em -3,7%”, diz o vice-presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG), Pedro Paulo Pettersen. Embora o índice esteja muito próximo de 4%, ele comenta que 0,3 ponto percentual significam milhões de reais na economia de um país do tamanho do Brasil. “De qualquer forma, a situação é grave. E o que vem pela frente, preocupante”, lamenta.

Revisão negativa

Em novembro, a previsão da OCDE para o PIB brasileiro em 2016 era de queda de 1,2%. No documento divulgado nessa quinta (18), a entidade reviu para baixo o índice, que agora é de -4%.  Ou seja, o país deve repetir o quadro econômico atravessado no ano passado. Agora, porém, a base de comparação é muito pior.

Além da inflação nas alturas, que ultrapassou o teto da meta estipulada pelo governo (de 6,5%) e bateu a casa dos 10,67%, segundo o IBGE, os imbróglios políticos colocam uma pá de cal na recuperação do país no curto prazo.

“A recessão será, certamente, mais profunda do que a prevista anteriormente, com a atual incerteza política e o aumento da inflação”, diz o relatório da OCDE.

E 2016 não é o melhor ano para resolver questões políticas. Conforme ressalta o presidente do conselho de Política Econômica e Industrial da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Lincoln Gonçalves, por ser um ano de eleições, as questões econômicas certamente serão capitalizadas pelos partidos. Desta forma, ao invés de solucionar problemas, possivelmente os candidatos estarão preocupados em destacá-los ou escondê-los.

“Não haverá foco em soluções. Assistiremos pessoas se aproveitando de situações”, critica.

A queda nos investimentos das indústrias é outro problema destacado no relatório da OCDE. Segundo documento divulgado nessa quinta (18) pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), no ano passado, 74% das indústrias fizeram algum tipo de investimento. O índice é o pior da série histórica, iniciada em 2010. Para 2016, a expectativa é a de que ele caia mais 10 pontos percentuais, fechando em 64%, um novo e péssimo recorde.

Sem aportes, há queda na produção e, consequentemente, no varejo, que encerrou 2015 com recuo de 4,3% nas vendas. Os empregos vão a reboque. Somente em 2015, o emprego industrial caiu 6,2%, segundo o IBGE. “O varejo também emprega milhões de pessoas. Em 2015 foram fechadas 100 mil lojas no Brasil”, diz. Ele estima que o desemprego chegue a 12% ao final de 2016.

Rebaixamento colocou o Brasil no “patamar” da Guatemala

Se em 2016 se confirmar a queda de 4% projetada para o Produto Interno Bruto (PIB), e 2017 for mesmo um ano de ajustes, com crescimento zero, 2018 será o ano de recuperação. Certo? Quase. Na avaliação do coordenador do curso de Ciências Econômicas do IBMEC, Márcio Salvato, os problemas atravessados pelo Brasil são tão fortes que dificilmente o país votará a crescer a taxas de 5% e 7%. “Se chegarmos a 2,5% será motivo para comemorar muito”, destaca.

Investimentos externos no país, por exemplo, já foram afugentados. Na quarta-feira, a agência de risco Standard&Poor’s rebaixou a nota de crédito brasileira de BB+ para BB. A classificação é usada como um selo de qualidade de bom pagador. Ou seja, quanto melhor avaliado o país (ou a empresa), mais credibilidade ele tem.

A redução na nota, aliás, iguala o país à Guatemala. O vice-presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG), Pedro Paulo Pettersen, afirma que é necessário ter cuidado na comparação. Afinal, o problema do Brasil é conjuntural, enquanto o da Guatemala é estrutural. Isso significa que o Brasil tem chances de sair mais rapidamente da crise, enquanto a Guatemala precisará fazer fortes alterações na estrutura do governo para não se afundar cada vez mais. “Mas, no que diz respeito à recomendação de investimento dos grandes fundos e dos grandes detentores de capital, nós somos iguais à Guatemala. É fato”, lamenta Pettersen.
 
O coordenador do curso de Ciências Econômicas do Ibmec ressalta que o problema econômico enfrentado pelo país, aos poucos, esbarra na esfera social. E, para um futuro próximo, a previsão é a de que as estruturas públicas reflitam o cenário nebuloso pelo qual atravessa o país.

Como exemplo, ele cita os sistemas de educação e de saúde, que já apresentam superlotação – já que com a alta do desemprego e a renda sendo corroída pela inflação, as famílias acabam abandonando as escolas particulares e os planos de saúde.

As projeções de Salvato não são nada animadoras. “O Brasil segue o mesmo caminho da Grécia”, diz. Além do déficit público e do endividamento crescente, o acadêmico afirma que o sistema de Previdência Social brasileiro é “generoso”, assim como o país europeu.