A paralisação de produção e o enxugamento do quadro de trabalhadores rondará as indústrias  automotiva e siderúrgica em 2016. As empresas desses segmentos já começam o ano com medidas para reduzir produção,  e a ausência de uma retomada na economia pode levar essa estratégia ao limite, culminando em dispensas e aumento  do desemprego. Os desdobramentos da falta de dinamismo nestes setores afetam diretamente Minas  Gerais, onde estão instalados o maior parque siderúrgico do país e o segundo maior polo automotivo do Brasil.

Pelo menos no primeiro semestre, no setor automotivo, deverá se repetir o filme visto em 2015, de  suspensão de contratos de trabalho, paradas técnicas, férias coletivas e outras formas de flexibilizar o volume de  produção. Para as usinas de aço, o que se desenha no horizonte se assemelha à conjuntura dos fabricantes de veículos,  com possíveis novas paralisações de plantas produtivas, como ocorreu com a Usiminas.

O presidente-executivo do Instituto Aço Brasil (IABr), Marco Polo de Mello Lopes, observa que as  dificuldades encontradas em 2015 se repetem esse ano, e se acentuam em virtude da falta de perspectivas. “No mercado interno é fraco pela queda da atividade econômica, que se repetirá este ano. No mercado externo,  temos uma pseudo-competitividade do câmbio quando se observa a queda nos preços internacionais, além de um  excedente de 70 milhões de toneladas de aço”, disse Marco Polo. A manutenção deste cenário, pondera o presidente executivo da IABr, levará a paralisação de novas usinas.

Acordo

Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) se  movimentou para garantir ao industrial flexibilidade na força de trabalho e tentar inibir demissões. A  entidade assinou acordo com os metalúrgicos mineiros válido para 2016 que permite a chamada compensação de jornada de trabalho. A empresa, se necessário, pode manter o trabalhador remunerado em casa e, posteriormente, o funcionário compensa essas horas com o não recebimento de horas extras.

“Todas as ferramentas para conter a produção serão usadas novamente, pelo menos no primeiro semestre.  Demitir é caro e gera perda de uma mão de obra muitas vezes qualificada e que depois será difícil encontrar de novo”, disse o presidente do Conselho de Relações do Trabalho da Fiemg, Osmani Teixeira de Abreu. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Betim, João Alves, comenta que uma das prioridades no acordo  coletivo de trabalho que está em negociação é a estabilidade do emprego. “O ano já começou com demissões, mas são  poucas. Como o futuro é muito incerto, vamos negociar a estabilidade “.

Fiemg cobra do governo federal estímulo para o consumo

A indústria depende da definição e efetivação das ações do governo que visam a interromper a trajetória de queda  da produção para começar a vislumbrar uma retomada. O presidente do Conselho de Relações do Trabalho da Fiemg,  Osmani Teixeira de Abreu, embora não esteja entusiasmado, tem confiança em melhores condições de mercado para a  indústria no segundo semestre de 2016.

“O governo tem feito um discurso no sentido correto, se incentivar o consumo. É disso que a indústria precisa,  porque produzimos para o comércio vender. O que precisamos é que essa intenção saia do discurso e as medidas sejam  tomadas, porque demandam tempo para surtirem efeito. Se o governo fizer a parte dele, o segundo semestre pode ser  de recuperação”, afirmou.

Enquanto a retomada não vem, a União adota medidas para amenizar os impactos da crise. Teixeira de Abreu, porém,  considerou insuficiente o plano do governo federal que visa a socorrer as empresas e mitigar impactos no mercado de trabalho. O Programa de Proteção ao Emprego, lançado em julho de 2015, permite a redução da jornada e,  proporcionalmente, do salário pago ao trabalhador, que é parcialmente compensado com recursos do Fundo de Amparo  ao Trabalhador (FAT). “As empresas continuam pagando as alíquotas de imposto. É pouco atrativo”.

Quem já esteve reunido com o governo apresentando sugestões de medidas para combater a recessão, mas não teve os  pleitos, atendidos foram os fabricantes de aço. Uma das principais reivindicações era a de tributar o aço importado, sobretudo o chinês, e arrefecer a penetração do produto no mercado nacional. “Nada foi feito”, reclamou o presidente-executivo do IABr, Marco Polo de Mello Lopes.

Anfavea

Em 2015, a indústria automotiva brasileira reduziu em 10% o pessoal empregado, o equivalente a um corte de  14,7 mil postos de trabalho. Eram, em dezembro de 2015, 129,7 mil trabalhadores empregados no parque automotivo  contra 144,5 mil em dezembro do ano anterior, conforme a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).  Os efeitos negativos se espalharam pela cadeia do segmento, e as autopeças colocaram na rua 29,7 mil  trabalhadores, de acordo com estimativa do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores.
 
39 empresas Empresas aderiram ao Programa de proteção ao emprego, lançado pelo governo federal em julho de 2015. São 41 mil beneficiados.

O ano já começa com Mercedes e Usiminas adotando ações de redução da produção, como haviam feito em 2015. A Fiemg acredita em novas rodadas de licença remunerada, paradas técnicas e redução de jornada de trabalho