Na contramão do Brasil, a distância entre os mais pobres e os mais ricos aumentou no Sudeste. A região mais próspera do país viu a desigualdade crescer na passagem de 2013 para 2014. Por aqui, o rendimento dos 10% que estão na base da pirâmide não avançou como o daqueles que estão no topo. 
 
Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), coletados pelo IBGE no final de setembro de 2014. “O que a gente viu no Sudeste é que houve aumento em todas as faixas de rendimento, exceto na mais baixa”, afirmou a gerente da Pnad, Maria Lúcia Vieira. 
 
Foi a única região em que houve aumento da diferença entre os mais pobres e os mais ricos. O Índice de Gini (medida de distribuição de renda) do rendimento do trabalho subiu de 0,475 para 0,478, entre 2013 e 2014. O indicador varia entre zero e um: quanto mais perto de zero, menor é a desigualdade. 
 
O índice não crescia no Sudeste há quase uma década, desde 2005. Porém, com o resultado, ele regrediu ao patamar de 2011, quando estava em 0,479. 
 
“Isso mostra que enquanto os mais pobres tiveram ganho de rendimento maior do que os mais ricos em outras regiões, no Sudeste não houve esse avanço”, disse a técnica do IBGE, Adriana Beringuy. Minas acompanhou o desempenho do país, com recuo de 0,472 para 0,467 do Índice de Gini.
 
Para Naércio Menezes Filho, professor do Insper, o mercado de trabalho do Sudeste pode ter perdido dinamismo antes do restante do país, afetado pelo comportamento da indústria. “O Sudeste foi o primeiro. Mas a distância da renda do trabalho entre os mais ricos e mais pobres voltou a crescer em geral no país em 2015, por outros indicadores”, afirmou. 
 
A vendedora Renata Lima de Souza sente no cotidiano as informações captadas pelo IBGE. “Ganho um salário mínimo, mas o custo de vida só cresceu de 2014 pra cá. A conta de luz, por exemplo, subiu de R$ 120 para R$ 250. Não sobra nada para um pequeno prazer ou luxo”, lamentou.
 
Os R$ 788 que a motorista Elizete Martins Silva recebe também já não são suficientes para arcar com todas as contas da casa. “Só mesmo um milagre. E o pior é que o pouco que conquistamos está indo para o ralo”, desabafou. 
 
Na região mais rica do país, os 10% mais pobres tiveram renda média do trabalho de R$ 430 em 2014, 0,7% abaixo de 2013. Já na média, o rendimento dos trabalhadores que moram no Sudeste subiu para R$ 2.037, aumento de 2,5% ante 2013[PE_BIOG].* (Com agências) 
 
 
Cresce acesso à educação, mas ainda há 13 mi de analfabetos
 
RIO DE JANEIRO – Mais 42 mil crianças entraram mais cedo na escola, enquanto 13,2 milhões de brasileiros ainda continuam sem saber ler nem escrever. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2014, divulgada ontem pelo IBGE, aponta uma expansão da educação infantil no Brasil. A faixa etária em que mais cresceu o número de pessoas frequentando a escola no país, entre 2013 e o ano passado, foi a de 4 a 5 anos de idade, na qual as crianças estão na pré-escola. 
 
Apesar desse avanço, a Pnad também mostra deficiências que se perpetuaram no setor no mesmo período: com menos cem mil analfabetos, o Brasil ainda tem 8,3% de cidadãos que não leem nem escrevem – o que faz com que não tenha atingido meta da ONU que estabelecia que o país chegasse a 2015 com 93,5% da população alfabetizada, ou 6,5% de pessoas iletradas, segundo pesquisadores da área.
 
Mesmo o avanço na educação infantil está ameaçado pela crise econômica atual, já que, dentro do corte no orçamento do Ministério da Educação em 2015, a maior redução, afirmam pesquisadores, foi no ProInfância (Programa Nacional de Reestruturação e Aquisição de Equipamentos para a Rede Escolar Pública de Educação Infantil), programa federal que enfoca justamente a construção de creches e pré-escolas.
 
“Essa melhora na educação infantil foi, em grande parte, causada pela Emenda Constitucional 59, aprovada em 2009 e que determinou a obrigatoriedade, a partir de 2016, da educação básica para todos que tenham de 4 a 17 anos de idade. Até aqui, a obrigatoriedade não incluía a educação infantil. Os governos e as prefeituras passaram a se organizar para começar a atender a Emenda 59 a partir do ano que vem, abrindo mais vagas e contratando mais professores para esse nível de ensino”, analisa Priscila Cruz, diretora-executiva do Movimento Todos Pela Educação. 
 
 
Ensino médio 
 
O que chama a atenção, porém, é o fato de que, entre 2013 e o ano passado, não se alterou o percentual de jovens que frequentavam a escola nem na faixa de 15 a 17 anos (84,3% dos jovens nessa faixa), nem na de 18 a 24 anos (30%), as faixas que equivalem ao ensino médio e ao nível superior, respectivamente.
 
“Como o ensino médio brasileiro sofre com problemas graves como evasão e defasagem idade-série alta, era para ter crescido esse percentual de frequência à escola na faixa dos 15 aos 17 anos se tivesse havido melhora significativa do fluxo educacional no país. O mesmo vale para a taxa de escolarização na faixa dos 18 aos 24 ano”, afirma o coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara.
 
A Pnad mostrou que o Brasil tinha 203,2 milhões de residentes no ano passado, o que significou um crescimento populacional de 0,9% em relação a 2013, ou 1,7 milhão de pessoas.
 
Em 2014, o rendimento médio da mulher foi de R$ 1.480, o que representa 74,5% dos R$ 1.987 dos homens, apesar delas, na média, estudarem mais.
 
 
*Agências Folhapress e O Globo