Se a mobilidade urbana nas grandes capitais brasileiras já está comprometida devido à quantidade de carros em circulação, as projeções para os próximos 20 anos não trazem alento. A frota brasileira deverá crescer 140% e chegar aos 95,2 milhões de veículos até 2034.

Os números são do estudo “2034 - Uma Visão do Futuro”, realizado pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), e preveem aumentos da taxa de motorização, expansão da frota e licenciamento de automóveis em diversos cenários.

Segundo o levantamento, a população crescerá em uma média anual de 0,5%. Nessa proporção, o país terá 226 milhões de habitantes em 2034. Paralelamente, o Produto Interno Bruto (PIB) será de US$ 4,036 trilhões, com o crescimento médio de 3% ao ano. Isso levará o país a um PIB per capta de US$ 17,9 mil, um crescimento de quase 60% em relação ao valor atual, que é de US$ 11,2 mil.

Coletividade

Um dos pontos de destaque do estudo revela que a taxa de motorização do país, atualmente de 5,1 habitantes por veículo, passará para 2,4 nas próximas duas décadas, ou seja, mais pessoas terão carro particular.

O número reflete situações como a da analista de finanças Raquel Brier. Na busca por praticidade, ela adquiriu o primeiro carro há quatro meses. Para fazer o deslocamento médio de 40 quilômetros entre a casa e o trabalho, gasta cerca de 30 minutos, o que demandaria um tempo muito maior caso o mesmo trajeto fosse feito de ônibus.

“Para me deslocar do bairro Santa Mônica (região da Pampulha) ao Jardim Industrial, em Contagem, eu teria que pegar até três ônibus, algo completamente inviável”, justifica a analista.

Para especialistas em mobilidade, o aumento da frota se torna mais preocupante à medida que não há planejamento para investimentos em obras viárias de infraestrutura na mesma proporção.

“É preciso inverter a lógica para restringir a circulação de veículos nos grandes centros de forma que o carro seja uma segunda opção de transporte. O poder público, em vez de dar isenção de impostos para automóveis, deveria dar incentivos fiscais para investimentos em transporte público”, opina o consultor em Transporte e Trânsito, Osias Batista.

Falta de obras viárias é gargalo grande em BH

Apesar de a taxa de motorização brasileira ser menor do que a da maioria dos países europeus, os gargalos do trânsito, segundo especialistas, estão mais ligados à falta de planejamento urbano do que ao aumento do número de veículos nas ruas.

O consultor em assuntos urbanos e mobilidade José Aparecido Ribeiro considera que Belo Horizonte tem, no mínimo, 150 gargalos de trânsito, o que exige infraestrutura como viadutos, trincheiras, túneis e elevados para serem resolvidos.

Para ele, a capital tem um passivo de 40 anos em obras viárias e o incentivo ao uso do transporte coletivo não será capaz de frear o aumento da frota, já que o país tem um mercado aberto paro o segmento.

“A avenida Amazonas, por exemplo, tem 45 sinais de trânsito sem sincronia. Na avenida Cristiano Machado são 14 gargalos, como cruzamentos em locais inadequados e sinais onde deveriam haver passarelas. São situações que prejudicam a fluidez do tráfego nas grandes vias da cidade”, argumenta.

O economista especialista em planejamento regional e urbano José Osvaldo Lasmar explica que as ações da BHTrans precisam considerar o impacto das regiões metropolitanas no trânsito de Belo Horizonte. Caso contrário, as medidas adotadas serão sempre paliativas.

“Tudo que for feito desconectado do entorno trará essa sensação de que estamos perdendo tempo e dinheiro. Cabe a nós deixar de lado essa visão municipalista, seguindo os exemplos de alternativas que integrem regiões, como é o caso do metrô de São Paulo”, argumenta.

O PlanMob-BH, balizador de ações da BHTrans para transporte coletivo, individual e não motorizado, tem como um dos principais objetivos aumentar a atratividade do sistema público de transporte, com implementação, por exemplo, do BRT/Move, desestimular o uso do automóvel e incentivar os deslocamentos a pé e de bicicleta. As informações estão no site da BHTrans.

Inovar-Auto fomenta aportes de R$ 50 bilhões

Os investimentos públicos para fortalecimento da política industrial brasileira na produção de automóveis, como é o caso do programa Inovar-Auto, já despertaram a insatisfação de países do G-7.

Por reduzir a carga tributária para a produção nacional de automóveis, o programa foi criticado por países como o Japão, que alegou violação às regras estabelecidas pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

O Inovar-Auto vai fomentar investimentos de mais de R$ 50 bilhões na cadeia nacional de produção de veículos automotores até 2015. As empresas habilitadas para participar do programa têm descontos de até 30 pontos percentuais na alíquota do IPI.

Para o presidente da Câmara Automotiva Mineira, Fábio Sacioto, a indústria de autopeças nacional também será impactada positivamente. “O aumento da produção será proporcional ao aumento da frota”.