Em agosto próximo, nove anos e sete meses após o assassinato de quatro funcionários do Ministério do Trabalho que foram a Unaí, no Noroeste de Minas, para apurar denúncia de trabalho escravo, será julgado o primeiro dos nove acusados. Três deles, apontados como executantes do crime, encontram-se presos à espera de julgamento, enquanto os outros, suspeitos de serem os mandantes, aguardam o julgamento em liberdade. 
 
Há um ano, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) mandou que o processo fosse desmembrado, e que Rogério Alan Rocha Rios, acusado de ter emboscado e atirado nos fiscais do trabalho, fosse julgado imediatamente, pois não poderia continuar preso sem julgamento.
 
No mês passado, o STJ determinou que compete à 9ª Vara da Justiça Federal em Belo Horizonte julgar todos os denunciados pela Chacina de Unaí. A juíza Raquel Vasconcelos Alves de Lima havia decidido que não lhe competia presidir o julgamento pelos jurados, mas sim a um juiz de Unaí. O Ministério Público Federal recorreu, alegando que, em razão do poder político e econômico de seis dos acusados, não haveria condições de um julgamento isento naquele município.
 
Ocorre que um dos acusados, Antério Mânica, é o maior produtor de feijão do município e um dos maiores do país. Poucos meses depois da chacina, ele foi eleito prefeito de Unaí, sendo reeleito em 2008. Um irmão dele, Norberto, é um dos denunciados. Outro, o empresário Francisco Elder Pinheiro, já escapou do julgamento, pois morreu em janeiro deste ano, aos 77 anos. 
 
Não há prazo previsto para o julgamento de todos os outros, à exceção de Rogério Rios. A justiça já demonstrou nesse caso uma lentidão que, se não de todo incomum, é notável. E continua devagar, apesar das pressões para que o julgamento ocorra. As pressões em contrário seriam mais fortes.
 
Na sexta-feira (3), confirmou-se que um partido político, o PR, deve inscrever Antério Mânica como candidato a deputado estadual mineiro, nas próximas eleições. Se eleito, o ex-prefeito vai se livrar do Tribunal do Júri, pois terá foro privilegiado, e ganhará muito mais tempo, antes de ir a julgamento. Até as eleições, o partido poderá decidir se compensa ter como um de seus deputados um suspeito de mandar matar quatro funcionários públicos. Não seria melhor aguardar que um corpo de jurados ponha fim a essa suspeita? Não basta que eleitores julguem Antério Mânica inocente.