Buscando aliar maior rentabilidade e melhor qualidade de vida, produtores de morango estão migrando para sistemas de cultivo nada tradicionais. A produção convencional tem perdido morangueiros para os sistemas orgânico e semi-hidropônico, que agregam mais valor à fruta pelo não uso ou diminuição do uso de agrotóxico.

Há seis anos, Rosângela Pereira Silva é produtora de morangos nas variedades Camarosa, Albion e Oso Grande, no município de Estiva, no sul de Minas. Ela possui 100 mil pés plantados, o que demanda colheita diária. “A quantidade colhida varia de acordo com o tempo e outros fatores de produção, mas eu consigo produzir o ano todo”, afirma.

Ela direciona sua venda, em Belo Horizonte, para lojas de produtos orgânicos, e, em São Paulo, para uma rede tradicional de mercados. Com o manejo 100% orgânico, uso de ervas, compostagem própria e certificação, seu custo é um pouco maior, porém a rentabilidade compensa. “Meu morango é inspecionado pela IBD Certificações, que comprova a qualidade das frutas. Isso eleva meus custos, mas me dá a garantia de um preço de venda melhor”, conta.

Rosângela Silva, que antes trabalhava no sistema convencional, não se arrepende da mudança. “Só existe vantagens em trabalhar de forma orgânica. Além de o valor de venda ser maior, sendo as nossas mudas próprias, não tenho dificuldade nenhuma porque temos o controle desde o plantio. Hoje, nem penso em voltar para o sistema antigo. Minha qualidade de vida melhorou muito, tanto como consumidora, quanto produtora”. Apesar de todas as vantagens e do aumento do número de adeptos, os agricultores que trabalham com o sistema orgânico em Minas Gerais ainda são em número pequeno, representando apenas 5% do total de morangueiros.

Semi-hidropônico

O outro sistema que os produtores estão começando a utilizar é o semi-hidropônico, modalidade desenvolvida em estufa. A fruta fica suspensa, sem contato com o solo, o que diminui o custo de produção, pois não precisa serem feitos investimentos para combater pragas e doenças, com uso em menor quantidade de agrotóxico, tornando o morango uma fruta com um padrão mais elevado.

Ao contrário do semi-hidropônico, no sistema convencional se perde muita muda por causa do calor. No novo processo, nos meses mais quentes, se produz menos, mas a produção não para e a muda pode ser cultivada por dois ou três anos. Rodrigo Pereira é produtor da variedade Albion, em Cambuí, no sul de Minas. Há 10 anos, ele trabalha com a cultura, mas somente há seis meses mudou o manejo para o semi-hidropônico.

“A mudança só trouxe benefícios. Hoje, trabalhamos em pé, sem precisar ficar agachados no chão, e isso me dá mais tranquilidade por saber que não terei graves problemas de coluna no futuro. O fato também de o sistema colocar as mudas elevadas, sem contato com o solo, diminui bastante as pragas e doenças, de forma que usamos três vezes menos agrotóxicos. Assim, o morango fica com uma qualidade melhor e se torna mais rentável”, afirma Rodrigo Pereira.

O produtor lembra que o investimento inicial é maior, mas a durabilidade do processo também. “Numa propriedade de mil metros quadrados, onde o custo é de R$ 10 mil a R$ 12 mil para o cultivo tradicional, no sistema semi-hidropônico o investimento é em torno de R$ 60 mil”, diz Rodrigo.

Minas Gerais é o maior produtor do país

Minas Gerais tem 1.790 hectares de plantação de morango, sendo a maior produção do país, com 41 toneladas por hectare. A produção esperada para a safra 2015 é de 72.716 toneladas. O estado foi o primeiro a produzir a fruta, seguido do Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo. O Paraná é o segundo maior produtor, com 18 mil toneladas.

A produção de morangos se concentra no sul de Minas, principalmente na região de Pouso Alegre. Os municípios que mais produzem são: Espírito Santo do Dourado, com 270 hectares; Estiva, com 234 hectares; Bom Repouso, 200 hectares; Senador Amaral, 200 hectares, e Pouso Alegre, com 144 hectares. A região de Barbacena também tem uma boa produção da fruta.

De acordo com o coordenador da Emater-MG, Deny Sanábio, o número de produtores em no estado tem se mantido. “Na regional de Pouso Alegre, por exemplo, continuam os mesmos agricultores familiares trabalhando com a cultura. Eles são 3.071 produtores de morango. É um cultivo de alto custo, não tem gente entrando nem saindo”.

As dificuldades dos produtores, principalmente dos que trabalham com o cultivo convencional, segundo ele, são as pragas e doenças, especialmente as fúngicas. Outro problema é a importação das mudas. “Hoje, o produtor quer comprar a muda pronta e nós não as temos aqui no Brasil. Importamos do Chile e Argentina, e isso acaba aumentando o custo inicial da produção do morango”, explica.

Normalmente, o pico de colheita da cultura é junho, julho e agosto, podendo ir até setembro. Quem trabalha com o sistema convencional consegue prolongar o tempo fazendo um túnel, numa altura de um metro do chão, para amenizar o calor. Uma saída que os produtores têm encontrado também para evitar a perda da fruta que não foi comercializada é congelar o morango individualmente. “Eles cortam as folhas verdes e congelam a fruta. Isso tem sido uma excelente alternativa para aumentar a rentabilidade e evitar o desperdício”, aponta Deny Sanábio.

Biofábrica de inimigos naturais

Está surgindo mais um aliado à produção de morangos sem o uso de agrotóxicos. Pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV) criaram uma Biofábrica de Inimigos Naturais, a Econtrole, que mesmo estando na incubadora de empresas da escola, é uma forte alternativa agroecológica de combate às principais pragas de morangos. 

O controle biológico de pragas utiliza inimigos naturais, que podem ser predadores ou parasitas, para combater as pragas que causam danos ao cultivo de qualquer cultura agrícola. Os pesquisadores elegeram, para início dos trabalhos, o cultivo de morangos atacados por dois tipos de ácaros: o rajado (Tetranychus urticae) e o enfezamento (Phytonemus pallidus).

Eles testaram a metodologia em uma propriedade no município de Ervália, próximo a Viçosa. “Acompanhamos uma safra de morangos comparando o controle químico com a introdução do ácaro predador Neoseiulus anonymus, um inimigo natural do ácaro praga. O controle biológico foi mais eficiente e bem mais econômico para o produtor”, afirmou João Alfredo Ferreira, da Econtrole.

“Hoje, o produtor quer comprar a muda pronta e nós não as temos aqui no Brasil. Importamos do Chile e Argentina” (Deny Sanábio - Coordenador da Emater)

“Acompanhamos uma safra de morangos comparando o controle químico com a introdução do ácaro predador, um inimigo natural do ácaro praga” João Alfredo Ferreira, da Econtrole