No dia da Proclamação da República, em 1889, a história registrou três mortes ocasionadas pelo fim da monarquia no Brasil. Foi no Maranhão, onde escravos libertados pela Lei Áurea saíram às ruas da capital com a bandeira do Império. Eles davam vivas à princesa Isabel quando foram silenciados para sempre por tiros disparados pela tropa comandada pelo alferes Antônio Belo, que feriram também outros manifestantes. Nenhum historiador se preocupou em descobrir e registrar os nomes das vítimas.

Teria sido mais fácil, se alguém tivesse dado importância a isso, do que a Polícia Rodoviária Federal divulgar os nomes das vítimas em acidentes de trânsito, entre aqueles que saíram em viagem, no feriadão de comemoração da Proclamação da República. Pois foram nada menos que 101 mortos e 1.278 feridos, em 2.269 acidentes registrados em rodovias federais brasileiras.

A Proclamação da República resultou de uma quartelada comandada pelo marechal Deodoro da Fonseca, um monarquista que trocou de lado, no dia 15 de novembro, por acreditar num falso boato espalhado pelos republicanos de que seria preso, juntamente com o tenente-coronel Benjamin Constant, líder dos oficiais republicanos, por ordem do governo.

E o que resulta de tantas vítimas nas estradas, numa ocasião que deveria ser festiva para os brasileiros? Em primeiro lugar, a carnificina provém da imprudência. Durante os quatro dias, os patrulheiros recolheram 690 carteiras de habilitação de motoristas que não foram aprovados nos testes de bafômetro e prenderam 196 em estado mais grave de alcoolismo ao volante.

Mais uma vez, Minas liderou o número de acidentes com mortes, nesse feriadão. Dez acidentes ocorreram no Estado, com 17 mortes. Em seguida veio Goiás, com nove acidentes e 11 mortes. E, em terceiro lugar, a Bahia, também estado vizinho, cujas estradas são muito procuradas pelos mineiros nos feriados prolongados. Mas não se sabe quantos nascidos em Minas fizeram parte dessa estatística, na qual é impossível citar nomes e, menos ainda, naturalidades. Não importa, pois as vítimas somos todos nós. Nenhum homem é uma ilha, escreveu no século 17 o poeta britânico John Donne, acrescentando: “Não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.

Serve de algum consolo? A mortandade nas estradas federais, no feriado da Proclamação da República, foi menor que a do feriadão anterior, o da Semana Santa. Neste, a PRF registrou 2.451 acidentes, com 121 mortos e 1.516 feridos. Seria muito bom se essa redução fosse resultado da maior conscientização de que é preciso grande cautela ao dirigir em nossas estradas, sabidamente ruins e perigosas. Congestionadas por veículos que já saem inseguros da linha de montagem. Mas talvez seja apenas obra do acaso. Pois muitos morrem antes de ter tempo de aprender.