Uma vacina contra o novo coronavírus, totalmente brasileira, com insumos desenvolvidos no país – inclusive, o ingrediente farmacêutico ativo (IFA)–, deve começar a ser testada em humanos no segundo semestre deste ano.

A informação é da professora Ana Paula Fernandes, coordenadora do Centro de Tecnologia em Vacinas (CT-Vacinas) da UFMG e da Rede Vírus, do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).  

“Já estamos em intenso trabalho com a equipe da Fundação Ezequiel Dias (Funed), em interação com a equipe da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para que tudo seja feito de acordo com as exigências. Vamos fazer tudo para acelerar ao máximo e iniciar os testes clínicos no segundo semestre”, sinalizou a cientista.

A avaliação de possíveis alternativas de vacinas contra o novo coronavírus, diz a pesquisadora, teve início na UFMG em fevereiro de 2020, quando a pandemia chegava ao país.

Ana Paula Fernandes revela que foram testadas várias plataformas – nos ensaios das fases 1 e 2 da pesquisa, em camundongos – e obtidos “resultados excelentes com proteínas recombinantes”.

Essa plataforma, explica, é a mesma usada, por exemplo, em vacinas contra o HPV e a hepatite. Consiste na produção de proteínas recombinantes sintetizadas em organismos que não são os agentes causadores dessas doenças.

A tecnologia é semelhante à adotada no imunizante da Universidade de Oxford, em parceria com a empresa AstraZeneca, que opera com vetores virais (vírus não patogênicos para os seres humanos) capazes de codificar proteínas do novo coronavírus sem causar a doença, mas estimulando a produção de anticorpos e células de defesa.
 
LOTE INICIAL
“Estamos desenvolvendo em parceria com a Funed o lote que vai ser usado para os testes clínicos”, informa ainda, lembrando que a UFMG elabora, mas não produz vacinas. “Vamos fazer todos os testes de segurança, de toxigenicidade, tudo o que é requerido pela Anvisa para aprovação”, frisa.

SAIBA MAIS
A previsão da cientista Ana Paula Fernandes, do CT-Vacinas da UFMG, é a de que a fase de testes clínicos, que tem três etapas, leve entre seis e dez meses. Nas etapas um e dois, explica ela, é testado um número menor de pessoas, avaliando se o imunizante induziu uma reação do sistema imune, como produção de anticorpos e ativação de células envolvidas na resposta celular.

Além disso, aponta, será verificado se a vacina não causa efeitos adversos graves – o nível de segurança do imunizante. Depois de atestado que desenvolve resposta imune e não causa efeitos graves, a pesquisa é ampliada para 10 mil, 20 mil pessoas.

O nome da vacina brasileira está em fase de decisão pelo CT-Vacinas, pela Funed e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Os recursos para as duas etapas iniciais de testes em humanos, cerca de R$ 20 milhões, viriam de financiamento federal. A despesa com o estágio final, ainda não calculada, precisará de captação, segundo a pesquisadora.