Levar a vida com leveza é uma tarefa difícil, principalmente em momentos como o atual, em que a liberdade de ir e vir está limitada e a humanidade vive assombrada por uma doença que obrigou todos a se recolherem, adiar planos e mudar a rotina diária.

Para falar um pouco sobre isso e dar dicas de como conquistar a leveza no caminho escolhido, a jornalista Leila Ferreira ministrou uma palestra, ontem, para os alunos da Funorte. Essa é a segunda vez que a mineira participa de evento no centro universitário. No início deste mês, o bate-papo foi com os professores da faculdade.

“Foi muito interessante, gratificante e teve a parte de interação com os professores. Fui muitíssimo bem acolhida e agora tive a alegria de ser convidada novamente, desta vez para falar com os alunos. Um duplo desafio, uma dupla prova de confiança da Funorte. Fico muito grata por isso”, conta a jornalista.

Na pauta de ontem, “A arte de Ser Leve”, tema que sempre instigou a jornalista que escreveu um livro sobre o assunto que virou um best-seller. São mais de 120 mil exemplares vendidos, o que, para ela, comprova a necessidade de leveza que todos sentimos. 
 
Dá para ser leve em dias de tanta incerteza, estresse, especialmente neste quase um ano de pandemia?
Quando falo de leveza, não falo de leveza alienada, nem alienante. É uma leveza realista, de pés no chão, que convive com nossas angústias, nossas dores com a precariedade da condição humana. Falo de uma leveza possível. Possível quando? Nos dias de hoje está difícil. Nós estamos vivendo um tempo que nada nos preparou para viver. Um tempo marcado pelas incertezas, angústia, ansiedade, por uma gama de medos impressionante. Então, pedir a nós próprios que sejamos leves nesse momento é algo fora da realidade. Mas o que eu acho é que esse momento marcado por tanto sofrimento é um momento de um potencial de aprendizado como a gente nunca teve antes. Nós estamos nos revendo em todos os aspectos. Revendo as vidas que nós temos levado. O que eu acho é que com essa reavaliação na vida de nós próprios, que esse momento está nos forçando a fazer, a gente pode construir possibilidades para um estilo de vida mais leve depois. A sensação é a de que a gente está fazendo uma travessia. Nós vamos chegar à outra margem do rio, no pós-pandemia que será um tempo extremamente desafiador. Acho que a gente pode pensar agora em formas de carregar menos peso dentro da gente nessa outra margem, porque viver pesa, o mundo é pesado, nossos cotidianos são pesados. O que a gente não pode é fabricar um peso adicional e desnecessário dentro de nós, carregando dentro de nós a intolerância, a raiva, o estresse, a impaciência, o egoísmo e tantas coisas mais que vêm engordando nossas almas. Nossa preocupação é com o peso do corpo, mas o peso que deveria nos assustar mesmo é o da alma. E a gente não tem prestado atenção a ele.
 
Quais as dicas para deixar a vida mais leve?
Talvez a coisa mais importante seja melhorar a qualidade da nossa convivência. Eu entrevistei um dos maiores especialistas em felicidade do mundo, um sociólogo e psicólogo da Universidade de Roterdam, na Holanda, para ouvir dele que talvez a coisa que mais nos aproxime da felicidade seja a qualidade de nossos relacionamentos pessoais. É o que ele diz. A gente faz de tudo para melhorar nossa qualidade de vida, mas a gente se esquece da coisa mais importante que é nossa interação uns com os outros. Nossas convivências são cada vez mais marcadas pela intolerância, agressividade, falta de paciência, pressa e pela falta de respeito, que é o pecado mais grave. Onde há falta de respeito e grosseria não há leveza, não há qualidade de vida e muito menos felicidade. Nessa avaliação que a gente está fazendo agora, é fundamental que a gente pense na possibilidade de tratarmos melhor uns aos outros, termos mais respeito, mais delicadeza e civilidade. Sem isso, o tecido da convivência vai ficando cada vez pior e nossas vidas inevitavelmente mais pesadas.
 
A chegada do coronavírus no Brasil mudou completamente a rotina: trabalho, vida social e, principalmente, o contato afetivo. A sensação de que estamos perdendo o controle de nossas vidas pode nos levar especialmente a quadros de ansiedade na pandemia. Fale um pouco sobre o assunto.

Entrevistei um professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo para um vídeo que vou gravar para o YouTube e ele fala isso, que a chegada do coronavírus desmantelou dois eixos essenciais para nossa construção como sujeitos. Um é o eixo profissional e outro é o eixo social. O que ele diz é que as nossas rotinas de trabalho são muito mais do que rotinas de trabalho. Tem todo um horizonte de expectativas em volta dela. E esse horizonte foi desconstruído. Para quem perdeu o emprego, muito mais. Mas, mesmo para quem continua trabalhando. Todas as variáveis da esfera profissional foram alteradas e ainda a esfera social de não poder encontrar os amigos, a família... Então, é inevitável que haja um processo de ansiedade muito grande em torno disso. O vírus sacudiu dois eixos essenciais na nossa construção como pessoas. Eu não daria dicas aqui porque não sou psicóloga, nem médica e psicanalista, não me aventuraria, mas a primeira coisa é aceitar a ansiedade, no sentido de entender que é um processo pelo qual nós estamos passando. Não negar, não tentar fugir dela e, acima de tudo, não tentar escondê-la. Precisamos hoje falar sobre nossos medos, ansiedade e pedir ajuda. Em alguns casos, ajuda profissional, em outros, de amigos e parentes para conversar e desabafar. Uma coisa que tem ajudado muito as pessoas é a meditação. Não precisa ser meia hora, uma hora, mas 10 minutos de quietude, com o celular desligado, os olhos fechados, num cantinho da casa, se existir esse cantinho, talvez seja um bom começo.
 
Como administrar a necessidade de trabalhar fora de casa (quem não pode fazer home office) com a necessidade do isolamento, de forma leve, sem se culpar?

A leveza é um desafio nos dias de hoje. Os dias de hoje servem para a gente construir uma leveza que virá. É muito difícil nos sentirmos leves agora. Quanto à culpa, a culpa é um dos sentimentos mais nefastos que existem. A culpa nos paralisa. Não nos deixa andar. Toda a hora que a gente tiver a tentação de sentir uma culpa muito grande, a gente precisa conversar. As conversas estão cada vez mais esquecidas. A gente não conversa de verdade, com calma, sobre os sentimentos, sobre as questões fundamentais da vida. Nossas conversas são cada vez mais apressadas e superficiais. E quando um sentimento como a culpa está gerando uma angústia imensa dentro da gente, ele não pode ser escondido. Esse sentimento tem que ser dividido, compartilhado, porque nós precisamos muito falar uns com os outros e ouvir uns aos outros. Quando você fala sobre a sua culpa, seja para um profissional, um terapeuta, uma amiga, um irmão, a sensação é a de que diminuiu o peso desse sentimento dentro de nós. Não é hora de a gente assumir culpas e nem culpar os outros. A gente só agrava o momento que estamos vivendo. A melhor forma de se defender da culpa é conversando, a velha e boa conversa, uma especialidade tão cara aos mineiros.

 

A gente faz de tudo para melhorar nossa qualidade de vida, mas a gente se esquece da coisa mais importante que é nossa interação uns com os outros

Leila Ferreira, jornalista e escritora