Escolher uma carreira que traga realização pessoal e dê retorno financeiro satisfatório é um dilema comum a estudantes prestes a terminar o ensino médio. Com a pandemia e o isolamento social, que restringiram o contato com colegas e professores, encontrar uma saída ficou ainda mais difícil – mas não impossível. Teste vocacional, orientação psicopedagógica e apoio familiar são alguns dos recursos para ajudar nessa missão. 

Psicóloga e orientadora educacional, Renata Vaz Santos lida diariamente com jovens em uma escola particular de Belo Horizonte. Ela concorda que a pandemia deixou mais evidentes o medo e a insegurança deles na definição da carreira, mas reforça que há antídotos para essa ansiedade.

Segundo ela, engenharia, medicina e direito continuam atraindo a atenção da moçada, tanto pela possibilidade de realização pessoal quanto pela remuneração. Mas a área da computação também tem despertado bastante interesse. 

“Além da vasta oferta de vagas (na área de tecnologia), muitas nem são preenchidas, pois não há mão de obra qualificada. Sobram empregos e os salários são tentadores, sem contar que a pandemia reforçou a importância dos setores ligados à computação”. 

Renata, no entanto, reforça que não adianta pensar apenas no retorno financeiro e ficar infeliz com a profissão. Por isso, uma bússola para orientar quem está “perdido” pode estar em testes vocacionais, palestras com especialistas de diferentes campos do saber e até numa boa conversa com outras pessoas. 

Bernardo Crivellari Bueno Jorge, de 20 anos, faz parte do grupo de alunos recém-saídos do ensino médio que ainda não conseguiram decidir que rumo tomar com relação à escolha do curso superior.

A indecisão o aflige. “A pandemia me deixou muito abalado emocionalmente, quase sem contato com o mundo externo. Apesar de ter feito testes vocacionais pela internet, o que está me ajudando mesmo é ter voltado para a terapia, conversar com o psicólogo”, diz.

Para Bernardo, as escolas falham ao oferecerem apenas uma preparação superficial para os alunos, durante o ensino médio, momento decisivo na hora de definir a profissão. 

“Grande parte dos colégios estão mais preocupados com que o aluno tenha um bom desempenho no Enem para que as instituições permaneçam bem colocadas no ranking da prova nacional. Com isso, submetem os estudantes a uma carga horária exaustiva, desinteressante e que não contribui para nos ajudar neste momento que certamente é um dos mais importantes de nossas vidas”, diz.

Autoconhecimento facilita tomada de decisão

Igor Rodrigues de Abreu, de 19 anos, ingressou no curso de Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), instituição que segundo o ranking da Times Higher Education (THE), um dos três mais importantes do mundo, coloca a UFMG como a quinta melhor universidade da América Latina, a terceira melhor instituição de ensino superior e a melhor federal do Brasil.

Apesar disso, Igor se sente atraído também pelo curso de Ciências Biológicas. “Estou com o curso de Geografia em andamento, mas ainda tenho dúvidas, pois sempre gostei muito tanto de Geografia quanto de Biologia enquanto estava no ensino médio. Fiz alguns testes vocacionais pela internet, e eles constaram que estou mais para o lado de humanas e biológicas mesmo”, afirma.

A psicóloga Telma Maria de Oliveira Gomes esclarece que o dilema vivido por Igor se deve ao fato de que muitos jovens acreditam que a escolha profissional precisa ser definitiva e que dificilmente poderão mudar essa decisão ao longo da vida. 

“Na verdade, a possibilidade de mudança sempre existe. Ao pensarem que estão escolhendo uma profissão para o resto da vida, eles se sentem mais pressionados, intensificando o nível de ansiedade, conflito e insegurança. Sem contar que é comum a família pressionar por uma escolha que vai garantir retorno financeiro, esquecendo que a satisfação pessoal talvez seja o mais importante. Os pais podem ajudar, mas não devem escolher pelo filho. O ideal é oferecer apoio e abertura para o diálogo”.

Telma sugere aos jovens que estão vivendo esse período a focarem na busca pelo autoconhecimento. “É preciso refletir sobre suas motivações, expectativas e desejos. Identificar nossos aspectos pessoais é o principal critério para uma escolha profissional consciente. É fundamental responder o porquê e para que seguir determinada carreira”.

Outro aspecto reforçado pela profissional diz respeito ao conhecimento do mercado e da realidade profissional. “Somente ao se informar sobre o mundo das profissões que o indivíduo terá mais clareza de suas preferências. Realizar uma pesquisa sobre os campos de atuação, a grade curricular dos cursos de interesse, o mercado de trabalho, oportunidades de emprego, desafios, pontos fortes e fracos”.

E complementa: “Uma estratégia interessante é entrevistar profissionais que atuam nas áreas que lhe despertam interesse. Por fim, deve-se integrar esses dois aspectos para tomar uma decisão mais madura e consciente”.