A maioria das pessoas já ouviu expressões como: “é preciso olhar para o lado bom das coisas”, ou, “você deve se esforçar mais para conseguir emagrecer”. Esse tipo de afirmação, muitas vezes, torna-se tóxica, por exigir de quem as ouve uma positividade que não é real. É a chamada “positividade tóxica. Segundo especialistas, uma imposição do otimismo como única forma possível de solucionar problemas e que pode levar à negligência dos sentimentos negativos. 

E é justamente no aspecto que minimiza as emoções consideradas menos positivas que está o problema. Para a psicóloga clínica Osmarina Vyel, mesmo diante de cenários dramáticos e adversos, as pessoas pressionadas a estarem felizes o tempo todo sentem-se cada vez mais desencorajadas a procurar apoio médico e emocional. “Elas silenciam suas emoções, sentem-se isoladas e têm vergonha de estar tristes. Assim, não buscam ajuda, pois não querem o estigma de pessimistas”, pondera.

Vidas perfeitas

Para ela, as mídias, em especial as redes sociais, com perfis que ostentam vidas irretocáveis, são as principais responsáveis por levar seus usuários a sentirem que precisam estar felizes e manter uma vida bem-sucedida sempre, o que pode, inclusive, incentivar processos angustiantes e depressivos.

Isso aconteceu com a jornalista Eliza Dinah Silva dos Anjos. Para ela, há uma pressão muito forte nas redes sociais, sobretudo no Instagram, para manter altos índices de produtividade no trabalho, estar sempre magra, ter o cabelo liso e perfeito, fazer as melhores viagens e manter diariamente o sorriso no rosto.

Por muito tempo ela se viu como uma vítima dessa pressão. “Via meus amigos e colegas de faculdade expondo sempre os melhores empregos, uma vida maravilhosa o tempo inteiro. Eu estava sempre bombardeada por esse tipo de informação e comecei a me sentir frustrada, incomodada com isso. Afinal, por mais que eu me esforçasse, por mais que tentasse seguir as dicas para estar magra, ter sucesso financeiro e uma vida em equilíbrio, ficava sempre muito longe daquele patamar idealizado nas redes sociais”, afirma.

Eliza avalia que os sentimentos angustiantes provocados pela felicidade exagerada – e muitos vezes fictícia – do Instagram foram tão fortes que, em determinado momento começou a reproduzir esse tipo de atitude tentando se encaixar no padrão.

“Comecei um ciclo vicioso e, toda vez que ia tirar uma foto, procurava um ângulo em que estivesse mais magra. Viajava pensando na melhor foto a ser publicada. Foi quando me dei conta de que eu estava reproduzindo aquilo que me fazia mal”, admite.

A solução encontrada pela jornalista foi cortar o mal pela raiz, com um detox. Ela se afastou por seis meses das redes sociais.

“No fundo, sempre soube que a internet, principalmente as mídias digitais, eram tóxicas, mas, só depois de 2019, talvez sob o impacto do isolamento social, tenha percebido que estava muito mal emocionalmente, muito triste, e só não fiquei pior porque pude contar com o suporte de uma psicoterapia”. 

N/A

“Adolescentes que não se conectam consigo mesmos, preocupados com o que mostram as telas de seus celulares, adoecem” Roberto Debski Médico

Autoconhecimento

O relato de Eliza, na avaliação da psicóloga Osmarina Vyel, só reforça o quanto o autoconhecimento é importante para se evitar armadilhas criadas pelas redes sociais. “Ser positivo e otimista é apenas um dos fluxos possíveis da vida. As pessoas positivas estão no estado de consciência da abundância, que precisa ser conquistado. Estamos vivendo um momento em que se fala muito em ação, em que as pessoas precisam agir para serem otimistas e felizes, mas a vida abundante e positiva pede também reflexão, inclusive, para que elas se fortaleçam e possam fazer escolhas. Se me conheço e faço as escolhas certas para mim, a toxicidade deixa de existir”, avalia.

Mulher Conecta

Outra vítima da positividade tóxica é Natália Cristina Rodrigues Macedo, idealizadora do blog Mulher Conecta. Em seu trabalho, ela tenta divulgar informações de maneira mais leve, mas consciente. Mesmo conhecendo profundamente as redes sociais e lidando todos os dias com elas, percebeu que ao seguir determinados perfis começou a ter a sensação de que tudo o que fazia não era suficiente. “Trabalho com o Instagram e, como tenho transtorno de ansiedade, as redes sociais passaram a ser muito nocivas para mim. Por isso, não pensei duas vezes e, nos últimos seis meses, deixei de seguir mais de 100 perfis, entre famosos, influencers e até mesmo parentes e pessoas próximas”, conta.

A partir do próprio sofrimento mental, Natália tenta fazer do blog uma rede de apoio a pessoas criticadas na internet, não importa o que façam. Entre elas, conta, está gente obesa e mulheres que não se encaixam nos padrões de beleza considerados ideais pela sociedade. No blog, ela diz que tenta levar aos seguidores relatos reais, “sem dicas de gurus especialistas em finanças, em beleza, em nutrição”. 

N/A

“Gente que quer ser profissional de tudo, quer dar dicas de tudo e acha que está ajudando, mas, na verdade, acaba afundando ainda mais as outras pessoas” Natália Cristina Rodrigues Macedo - idealizadora do blog Mulher Conecta

Ficção da vida digital prejudica saúde mental de adolescentes

Verdade é que não é fácil lidar com as emoções, sejam elas negativas ou positivas. Mas o ser humano está sujeito a todas. O médico e psicólogo comportamental Roberto Debski explica que emoções são sinais de alerta e não estão ali por acaso. “Negar uma experiência negativa é algo irreal e vai trazer muito sofrimento. A gente deve acolher todas as emoções e trabalhar com elas, com o objetivo de nos tornarmos mais resilientes”, explica
O médico, que também é especialista em Homeopatia e Acupuntura, chama a atenção para o fato de que é preciso ter consciência de que as redes sociais trabalham e se baseiam em imagens que são apenas um recorte da realidade. “É importante abordarmos o tema da positividade irrealista, porque muitas pessoas não se dão conta sozinhas de toda essa ebulição tóxica e é nessa hora que se faz necessária a ajuda profissional”. 

Assim como ocorre com adultos, as redes sociais e a positividade tóxica têm adoecido adolescentes e jovens, afirma Roberto Debski: “Diante de evidências do aumento de casos de depressão e suicídio, especialistas foram investigar e identificaram que a causa do adoecimento dos jovens é o uso excessivo das mídias digitais, principalmente, aquelas em que a exposição das vidas e corpos sarados, belos e sensuais são mais fortes”.

Ainda segundo o médico, as horas on-line se mostraram responsáveis pelo crescimento de ocorrências de transtorno alimentar e comportamento agressivo entre os jovens. “São adolescentes que não se conectam consigo mesmos, preocupados com as aparências, com o mundo externo a eles, com o que mostram as telas de seus celulares e, é claro que a consequência será o adoecimento, emoções negativas, que, na verdade, nada mais são do que o corpo e a mente pedindo socorro”, diz Debski.

Mobilização

O adoecimento de jovens tem sido tão severo que escolas se mobilizam para fortalecer seus alunos e ajudá-los a perceber que os “cases de sucesso” vistos nas redes sociais devem ser interpretados de maneira mais realista e crítica. No colégio em que cursa a 1ª série do Ensino Médio, em BH, Maria Clara Medeiros, de 15 anos, é uma das palestrantes no projeto que busca ajudar os estudantes a desenvolverem habilidades socioemocionais e cognitivas. A pressão das redes sociais a levou a um quadro de depressão, bulimia, anorexia. 

“Abrir as redes sociais e ver fotos 100% positivas o tempo todo é muito desanimador. Tem gente sempre dizendo o que você precisa fazer para crescer, como ficar rica, ser feliz, ser bem-sucedida, ter boa aparência. Dizem que basta você querer. E para quem vive uma vida de verdade, cheia de altos e baixos, ver isso é um soco no estômago”, afirma.

Ela revela que resolveu contar sua história em uma palestra escolar para tentar ajudar outras pessoas. “Passei por isso, mas não pude contar com o apoio dos amigos, pois existe tabu sobre quem está doente, uma vez que no mundo da positividade temos que estar bem, lindos e saudáveis o tempo todo”. Recuperada, ela fala que contou com o amor de seus familiares no processo. “Foram meus pais que me incentivaram a procurar ajuda”, diz.

N/A

“Pessoas pressionadas a estar felizes o tempo todo silenciam as suas emoções, têm vergonha de estar tristes”Osmarina Vye psicóloga clínica

Sensação de angústia semelhante é descrita por Rafaela Moraes Miserani de Freitas, 17 anos, aluna da 3ª Série do Ensino Médio: “Quanto mais a gente vai vivendo nessa ficção digital, mais internalizada ela vai ficando. Para preservar a nossa saúde mental é preciso sair um pouco da internet, o que é muito difícil para nós jovens. Tenho tentado reconhecer a realidade da internet e me voltar para a vida real”, ensina.

Leia mais:
Shopping Oiapoque proíbe vendedores de abordar clientes com gritos e 'puxões'
Serviços digitais dos bancos avançaram, mas sem necessariamente beneficiar a clientela
Pacientes enfrentam distúrbios de sono após internação por Covid-19