Fama e visibilidade nas redes sociais e no mundo digital são sonhos de muita gente. E há espaço de sobra para que as pessoas se sobressaiam neste universo que as expõe de forma ilimitada. Mas é aí que mora o perigo. Estar em evidência pode não render só lucro, não. Se a celebridade comete, digamos, “deslizes” - que desagradam a opinião pública, os internautas, seus seguidores -, pode ser alvo de verdadeiras punições. Até no bolso.

Um dos exemplos mais atuais desse tipo de situação tem no epicentro a rapper curitibana Karol Conká, que está entre os reclusos na famosa casa do BBB21. Antes de entrar no jogo, a artista já tinha milhões de seguidores nas redes sociais e um público fiel a seu trabalho. Mas virou alvo da ira de outros famosos e anônimos, ao mergulhar em uma polêmica com o ator Lucas Penteado. Para muitos, vem mostrando na prática o inverso do discurso e da postura sustentados até então do lado de fora. 

Dedo em riste
Do lado de cá da tela, vários artistas têm usado as próprias redes sociais para apontar o dedo para Conká, acusando-a de tortura psicológica contra o ator. 

A repercussão dessa história rendeu a Karol Conká, além das incontáveis críticas, na internet, uma debandada de seguidores nas redes sociais e até a perda de um contrato de show. O programa dela no Multishow foi suspenso.

“O ser humano precisa de ídolos, ele romantiza, idolatra a imagem de alguém público conforme quer. Acha que a pessoa é gente boa porque faz músicas com letras românticas e filosóficas. Só que, ali por trás, tem um ser humano com seus traços de personalidade, que podem ser perversos, abusivos”, pondera a psicanalista Simone Demolinari, colunista do Hoje em Dia.

Para ela, um ídolo que vende uma imagem e um fã que o idealiza estão em equívocos iguais. “Antigamente, as gravadoras proibiam os músicos de revelar que eram casados, para continuar sendo desejados pelas fãs. Isso sempre existiu. Quando o seguidor descobre que a pessoa é de verdade, a admiração cai por terra”, frisa a psicanalista.

“O ser humano precisa de ídolos, ele romantiza, idolatra a imagem de alguém público conforme quer. Acha que a pessoa é gente boa porque faz músicas com letras românticas e filosóficas. Só que, ali por trás, tem um ser humano com seus traços de personalidade, que podem ser perversos, abusivos”, pondera a psicanalista Simone Demolinari, colunista do Hoje em Dia

Logo no começo desta pandemia, a influenciadora digital Gabriela Pugliesi, que arrasta milhões de seguidores atrás de suas dicas de saúde e bem-estar, sofreu repreensões parecidas, após a publicação de imagens em uma festa, sem máscara, contrariando as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Pugliesi leu e ouviu todo tipo de crítica, viu os fãs abandonarem suas páginas na web e teria tido, à época, prejuízo financeiro próximo dos R$ 3 milhões.

Predisposição
Para a psicanalista Simone Demolinari, as pessoas que são hostis nas redes já tinham uma predisposição para a agressividade. “Discordo da frase que diz que ‘a ocasião faz o ladrão’. Acho que o ladrão já está pronto. A ocasião apenas revela o ladrão”. 

Ainda na avaliação da especialista, o que tem encorajado tanta gente a inundar as redes sociais com agressividade é o semianonimato que o mundo virtual sugere. “A crença de estar agindo no anonimato cria um salvo conduto, uma autorização para a pessoa xingar, denegrir. Mas as delegacias contra crimes virtuais estão cada dia mais atuantes”. 

Há casos em que as personalidades não conseguem se conter diante de interferências desagradáveis nos posts. Outra influenciadora digital de sucesso, conhecida por seus vídeos de game stream, Gabi Cattuzzo enfrentou a fúria de muita gente quando respondeu, em sua conta no Twitter, a um comentário de cunho sexual com a frase: “Homem é lixo”. E também perdeu contrato com um patrocinador.

“As redes sociais estão revelando as nossas fragilidades. E isso não vai mudar. A menos que cada um se submeta a um trabalho individual. Se eu critico uma pessoa que comprou um carro novo e postou nas redes sociais, tenho que trabalhar a minha inveja”, pondera o neuropsicólogo Cláudio Vieira de Lima, coordenador Acadêmico das Faculdades Kennedy e Promove.