O isolamento social estabelecido pela pandemia do novo coronavírus mudou o mundo e a rotina das famílias. Se por um lado, o excesso de tempo passado dentro de casa tem possibilitado rever prioridades e até hábitos de consumo, por outro, tem levado a reflexões e experiências novas – nem sempre positivas, é verdade – nos relacionamentos amorosos.

Confinados sob o mesmo teto 24 horas por dia, casais têm visto as próprias relações serem colocadas à prova. Alguns viram ficar mais evidentes diferenças antes minimizadas pela falta de tempo do cotidiano. Outros, transformaram os desafios da nova rotina em oportunidade para redescobrir afinidades da vida a dois.

Para a psicóloga clínica e familiar Daniela Bittar, o segredo para evitar que os “defeitos” da cara-metade se tornem insuportáveis a ponto de comprometer a saúde da relação está em exercitar a resiliência.

“A falta de convivência com o mundo externo nos torna completamente vulneráveis, expostos às verdades das relações primárias, aquelas de confiança, nas quais tudo fica muito visível, tanto o melhor quanto o pior de nós. É preciso desenvolver diálogos mais assertivos, parar de apontar defeitos e trazer sensações e emoções à tona. Compartilhar”, ensina.

Confira o que diz sobre o assunto a psicóloga especialista em sexualidade humana Sônia Eustáquia:

Divisão de tarefas

É o que tem feito a dentista Flávia Porcaro Lacerda Pimenta, de 38 anos, com o marido, o advogado Felipe Cosso Pimenta, de 34. Ela, com as atividades suspensas pelo conselho de classe, e ele, em home office, têm aproveitado o maior tempo em casa para conciliar tarefas domésticas, dar atenção à filha, Rafaela, de 1 ano, e cuidar também da relação conjugal.

“A maior parte dos pontos que nos levavam a discussões na vida cotidiana, agora, foram descartados. Ele me ajuda em tudo e ainda sobra tempo para uma cervejinha, um vinho, para assistir a uma série. O relacionamento só melhorou”, diz.

A gerente administrativo Suelen Rodrigues Ribeiro Carvalho, de 37 anos, também tem voltado os olhos para qualidades do marido, Tiago, que estão fortalecendo não só o vínculo da família, mas a relação do casal.

“O grande ganho foi o convívio com as crianças (uma menina e um menino, de 7 e 5 anos). Ele tem tido mais paciência, tem inventado brincadeiras, o contato aumentou muito. Enquanto casal, graças a Deus está tudo bem. Estou achando até mais gostoso estar mais perto dele”, compartilha.

Exercícios de virtudes 

A psicóloga especialista em sexualidade humana Sônia Eustáquia diz que em momentos como este, nos quais somos forçados a um excesso de exposição ao outro, é natural deixarmos aflorar sentimentos e emoções camuflados pelos filtros sociais do dia a dia.

Segundo ela, porém, é fundamental que os casais exercitem as virtudes da tolerância, da humildade e da compaixão para aproveitar o momento, oportunidade de crescimento individual e da relação. 

“Infelizmente, vejo, num horizonte próximo, muitos divórcios e um percentual grande de casais precisando de ajuda profissional para voltar a se entender. Num momento como esse, não existe quase nada disponível no âmbito social para ajudá-los, como sair para jantar ou dançar. No campo comum, as DRs já se esgotaram e se esgotaram também as receitas prontas, a não ser o exercício da criatividade e de cada um olhar para si e exercitar as virtudes da melhor maneira possível”, coloca. 

Excesso de preocupações e foco em problemas impactam também nas relações sexuais

Somado às preocupações que envolvem o cenário desenhado pela pandemia do coronavírus, o desgaste ocasionado pelo confinamento forçado tem impactado também nas relações sexuais de quem divide o mesmo teto. O motivo? A falta de foco na intimidade, que acaba impactando na convivência e, consequentemente, na libido.

É exatamente essa a experiência pela qual tem passado a representante comercial Samira Ribeiro Campos Trindade Ramos, de 36 anos. Dividida entre as tarefas domésticas, os cuidados com a filha, Maria Victória, de 6 anos, e a resolução dos problemas relacionados ao trabalho, agora suspenso, falta tempo para curtir o marido, Marcus Vinícius.

Embora tenham consciência de que trata-se de uma situação passageira, ainda não encontraram a “fórmula” para driblá-la. “O maior desafio é, de fato, encontrar tempo juntos enquanto casal, já que a rotina, da casa, inclusive, mudou. Nossa filha dorme e acorda tarde e tem demandado muita atenção. Fica difícil ter momentos a sós, de intimidade”, revela.

Casamento "de lado"

A advogada Juliana Guedes, de 38 anos, tem passado por situação parecida. “Dispensamos nossa funcionária e acabei acumulando funções nas quais contava com a ajuda dela – limpar, cozinhar e cuidar de um bebê de 6 meses. O resultado é um esgotamento que, no fim do dia, me impede de pensar em qualquer coisa que não seja descansar”, conta, assumindo ter deixado o casamento “de lado”. 

Especialista em sexualidade humana, a psicóloga Sônia Eustáquia diz que, nessa hora, é importante se voltar para as sensações dos momentos e vivê-los com mais qualidade.

“Há que se focar nas sensações, na emoção e no desejo que está sentindo, porque só assim é possível que o cérebro processe essas informações e as devolva como excitação e, obviamente, na relação sexual como um todo”, explica.

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