“Fazendo uma reflexão, tenho certeza de que sou muito impaciente. Quero as coisas na hora. Depois, não serve mais”. A frase é de Ludimila Elisandra de Sousa, de 25 anos, que se autodefine – e já ficou conhecida entre familiares e amigos – como uma pessoa apressada e estressada.

Embora pareça peculiar, o comportamento dela não é único. Assim como a advogada, uma legião de pessoas têm se tornado vítimas de uma espécie de “síndrome da urgência” – desejo incontido por ter tudo no próprio tempo. 
 

Síndrome da urgência Ludimila Elisandra de Sousa

AJUDA - Ludimila ouve podcasts sobre atenção plena e autoconhecimento para ajudar a diminuir o próprio ritmo

Palavra de Especialista

Vivemos um mundo de transformações e isso interfere na subjetividade do homem contemporâneo. A tela do computador nos exibe para o mundo inteiro. Conversamos olhando na face do outro a qualquer hora do dia. A temporalidade mudou. Não há mais aquele tempo de espera de antes. O que se deseja, se tem na hora. A impaciência e a irritabilidade têm a ver com essa velocidade das coisas, com a dificuldade de esperar. Em 2017, fomos o país com maior nível de transtorno de ansiedade no mundo. Mas cada indivíduo tem um limite pessoal que não deve ser ultrapassado. Alguns são mais lentos, outros mais rápidos. São características de cada um. É preciso um equilíbrio até que a adaptação às mudanças ocorra.
Marília Brandão Lemos de Morais - Psiquiatra e psicanalista, membro da Associação Mineira de Psiquiatria (AMP)

Resultado do excesso de informações e da ansiedade, leva ao estresse, mas pode ser minimizada com exercícios diários capazes de aumentar a inteligência intrapessoal – capacidade de identificar as próprias emoções e sentimentos.

“O estresse deriva da necessidade de controlar. Quando o trânsito não anda, por exemplo, reclamamos do semáforo e buzinamos para que o outro saia da frente. O filósofo grego Epiteto já dizia: ‘Devemos nos ocupar somente daquilo sobre o que temos controle’. Essa é a chave da felicidade. É difícil conseguir alcançá-la, mas quem está relax, em tese, está melhor”, diz a psicanalista Simone Demolinari.

Ludimila de Sousa tem feito o dever de casa. Apostou as fichas em podcasts de autoconhecimento. Escutados diariamente a caminho do trabalho, os áudios ajudam a focar no momento presente e deixar de lado o costume de fazer e querer tudo ao mesmo tempo.

O resultado veio, inclusive, com bem-estar físico. “Sofria com tensões musculares e desconfortos nos ombros e pescoço, além de dores de cabeça e zumbido no ouvido. Tomar consciência de que não se deve fazer nem querer tudo ao mesmo tempo tem sido fundamental”, compartilha a advogada.

Treino de paciência

O estudante de arquitetura Lucas Valois, de 26 anos, também procurou ajuda ao identificar que estava se tornando ansioso e estressado demais por causa do imediatismo. Um dos exercícios que faz é escrever cartas para o namorado, que mora em outro Estado. “É um treino de paciência. Diferentes veículos permitem diferentes formas de comunicar. Na carta, falo de coisas que não são imediatas. A imaginação flui melhor e a comunicação fica mais morosa e afetiva”, diz.

Aprenda a praticar a respiração alternada no vídeo abaixo, com a psicanalista Ailla Pacheco:

Respiração ajuda a gerenciar emoções e controlar ansiedade

Indicação popular muito usada por quem se pega com raiva, ansioso, pronto para “explodir” a todo momento, contar até dez – e respirar – antes de reagir a uma situação pode ajudar também quem sofre da síndrome da urgência. Psicoterapeuta, professora de yoga e mestre em reiki em Belo Horizonte, Ailla Pacheco explica que inspirar e expirar pausada e profundamente ajuda no gerenciamento emocional e melhora o autocontrole.

“Nossa respiração está diretamente relacionada às nossas emoções. Em uma crise de ansiedade, as pessoas sentem os batimentos acelerados e a respiração fica ofegante. Acontecem, então, disparos do hormônio do estresse no corpo. Quando aprendemos a acalmar e controlar a respiração, prevenimos emoções destrutivas”, detalha, reforçando que um dos fatores que mais contribuem com a impaciência e, portanto, com a dificuldade em lidar com o ritmo do outro, é a ansiedade. 


Tempo de cada um

A profissional reforça que à medida em que nos conhecemos e respeitamos nosso próprio tempo, nosso “relógio pessoal”, nos tornamos mais empáticos, pacientes, conscientes e compreensivos.

“A cobrança exacerbada, evidente na sociedade de hoje, é tóxica tanto para quem cobra, quanto para quem é cobrado. Ambos sofrem. Logo, quando se desperta para o processo do respeito mútuo, compreende-se com mais clareza sobre não se estar vivendo no agora, e sim, no futuro – a ansiedade –, clareando, então, o processo de autopercepção”, detalha.

Paciência

A psicanalista Simone Demolinari acrescenta que fugir do imediatismo não significa ser negligente nem deixar tudo para lá. Segundo ela, é um exercício de paciência, que deve ser ponderado e praticado individualmente. “Ser urgente pode ou não ser escolha. Mas se tiver um relógio computando, por exemplo, e a pessoa perder o tempo, o prazo, aí torna-se prisioneira de si mesma, e passa a ser um problema”, afirma Demolinari. 

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