Segundo maior produtor de transgênicos do mundo, o Brasil vem caminhando a passos largos na aplicação de tecnologia voltada para a produção de alimentos. Em um ano, a área plantada de organismos geneticamente modificados aumentou quase 5%, o equivalente a 2 milhões de hectares. A produção, porém, ainda enfrenta a resistência de quase metade dos brasileiros, gente que desconhece ou desconfia da manipulação em laboratório.

Para a engenheira de alimentos Cristina Fantini, professora no UniBH, um dos principais questionamentos está relacionado à saúde humana e a eventuais doenças acarretadas pelo consumo desses alimentos. Ela acredita que os estudos existentes não são sólidos o bastante para garantir a segurança da matéria-prima alterada que chega à nossa mesa. 

“Esse é o grande ponto de incerteza. Não se fala sobre os efeitos disso tudo no médio e longo prazos. O que pode ocorrer com as pessoas daqui a 30, 40 anos? Que impactos esses alimentos podem ter no desenvolvimento de doenças crônicas?”, questiona.

Caminho sem volta

Foi exatamente esse o temor revelado por um levantamento do Ibope Conecta encomendado pelo Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB). De acordo com a pesquisa, divulgada no fim de 2016, 44% dos brasileiros acreditam que os transgênicos são pouco testados e mais de um terço da população consultada diz que fazem mal à saúde.

Entretanto, especialistas contra-argumentam e reforçam que, além de segura, a tecnologia é um caminho sem volta. “Há uma dificuldade grande em enxergar o papel da ciência na agricultura. O processo de transgenia está vinculado a testes e pesquisas que podem levar até 15 anos para serem concluídos. Questões ligadas a alergia, por exemplo, são as primeiras a serem respondidas”, afirma a diretora-executiva do CIB, Adriana Brondani, Ph.D em biologia. 

Testes

Considerada uma das mais rigorosas do mundo, a legislação brasileira que regula os transgênicos exige um demorado e detalhado processo de avaliação. Chefe-geral da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, o engenheiro químico José Manuel Cabral explica que as análises incluem testes agronômicos, nutricionais, ambientais e para detectar potencial alergênico em seres humanos.

“Depois disso, entre três e quatro anos, os efeitos do produto no meio ambiente e para os consumidores também são analisados. Nunca houve caso de retirada de transgênico do mercado, mas de substituição por cultivares com características melhores ou mais adequadas”, diz. 

Segundo o pesquisador, não há motivo para novas polêmicas. “Uma série de características importantes estão sendo pesquisadas, inclusive para contribuir com o planeta, a exemplo de cultivares resistentes à seca. Isso será extremamente importante nos próximos anos, tendo em vista o aquecimento global”. 

Atualmente, quase toda soja produzida no Brasil é transgênica. Algodão e milho são as outras cultivares já aprovadas e colocadas no mercado brasileiro. 

Pesquisas com feijão resistente a vírus e algodão, à praga do bicudo-do-algodoeiro, estão em andamento na Embrapa. Em 2011, a empresa conseguiu a aprovação do primeiro produto geneticamente modificado totalmente desenvolvido por uma instituição pública da América Latina: o feijão resistente ao vírus do mosaico dourado. 

Desperdício, desigualdade na distribuição e obesidade: o outro lado da moeda 

O aumento do potencial agrícola do Brasil está ancorado no emprego de ciência no campo. É o que diz um relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), que sugere que o país está preparado para ser o maior produtor de alimentos do mundo, até 2024. A justificativa, conforme o documento, é o aumento da produtividade das culturas, amplamente incrementado pelo avanço tecnológico do setor.

Dentre os benefícios apresentados pelas culturas transgênicas, conforme pesquisadores da área, está a resistência a pragas, doenças e até a problemas climáticos, como a seca, grandes obstáculos da produção de alimentos. 

Segundo a diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), Adriana Brondani, a aplicação da engenharia genética na agricultura tem permitido o desenvolvimento de cultivares com maior qualidade e proporcionado menos perdas. “Assim, a produção de alimentos aumenta”, diz. 

Os ganhos, segundo ela, não param por aí. “Algumas cultivares mais resistentes poderiam ser plantadas em locais onde, naturalmente, isso não seria possível. Além disso, economiza-se em área, já que a planta tem alta produtividade”.

Entidades globais contrárias à adoção dos transgênicos, por sua vez, apontam riscos e prejuízos provenientes do uso da técnica. Para o Greenpeace, a perda ou alteração do patrimônio genético das plantas e sementes e o aumento do uso de agrotóxicos são os principais problemas. “A solução da fome no mundo não passa por tecnologias, mas por novas escolhas. De fato, temos produzido muito, mas números como os de desigualdade, obesidade e desperdício também são altos, o que aponta um grande problema em nosso modelo de produção”, informou a entidade, em nota.

Fique por dentro

Se por um lado há pesquisas que atestam a qualidade e segurança dos transgênicos, por outro, há estudos que mostram justamente o contrário. Algumas linhas de investigação científica sugerem aumento do surgimento de alergias e até resistência a antibióticos. 

Além disso, apesar de serem, na maioria das vezes, resistentes a pragas e doenças, algumas sementes geneticamente modificadas resistem também a venenos, necessitando de uma quantidade maior de herbicidas, caso do controverso glifosato, constantemente relacionado ao câncer. 

Segundo o Greenpeace, uma vez liberados e introduzidos na natureza, organismos geneticamente modificados expõem a biodiversidade a riscos. “Não existe consenso na comunidade científica sobre a segurança dos transgênicos. Testes de médio e longo prazo, em cobaias e em seres humanos, não são feitos”, afirma a organização.