Westeros não existe no mundo real, mas o mundo fantástico criado por George R.R. Martin, em “Crônicas de Gelo e Fogo”, pode trazer muitas informações e discussões sobre a realidade. Poucos dias antes da estreia mundial da quinta temporada de “Game of Thrones” (12 de abril), o Hoje em Dia perguntou a alguns historiadores o quanto o público pode aprender com as tramas violentas e dramáticas, inspiradas no período medieval.

Doutorando na UFMG, Igor Nefer acredita que há muitos dados nessa ficção que estão de acordo com a história e poderiam ser trabalhados por professores, aproveitando o sucesso da série entre os jovens. “Sou defensor de que a ficção jamais é absolutamente descolada da realidade. Seja por remeter, de vez em quando, a fatos reais, ou por propositalmente querer passar alguma mensagem sobre questões reais ao público, a ficção sempre tem algo a dizer sobre a vida real, para o mundo concreto”.

Mas os professores devem ficar atentos: muitas das características da trama estão mais relacionadas à Idade Moderna do que ao período medieval. “Os jogos de poder visando a sucessão no trono, assim como as intrigas palacianas que marcam personagens como Cersey, o anão Tyrion, o ‘Mindinho’ ou o eunuco remetem bem ao que historiadores de Antigo Regime e Idade Moderna chamam de sociabilidade cortês ou de corte”, explica o pesquisador.

“No primeiro ponto, alianças e guerras foram feitos ao longo do período por questões de sucessão. Nisso temos como exemplo notório a chamada Guerra de Sucessão, ocorrida na Espanha entre 1702 a 1714, após a morte de Carlos II, que não deixou herdeiros. O que levou o rei da Áustria, Leopoldo I, a iniciar hostilidades contra os espanhóis”, exemplifica.

Para entender um pouco o complexo sistema feudal europeu

O sistema feudal que prevaleceu em boa parte da Europa central entre os séculos 5 e 14 é a principal fonte de inspiração para George R. R. Martin. Mas é importante os espectadores saberem que isso aparece de forma simplificada e, em certo ponto deturpada, em nome da trama ficcional.

Podemos dizer que o sistema social de Westeros é uma forma específica de feudalismo, com relações de suserania e vassalagem entre os nobres e de servidão entre nobres e camponeses. Há também um rígido sistema de castas sociais, porém não fica claro se o Clero é totalmente superior à nobreza, como o Clero católico era aos nobres europeus”, explica Cássio Araújo Rocha, doutorando do curso de História da UFMG, que leu todos os volumes de “Crônicas de Gelo e Fogo”.

Discussão ampla

“Game of Thrones” segue a mesma receita bem-sucedida de “Roma”: sexo, violência e intrigas em um contexto histórico definido. O que não quer dizer que isso seja suficiente para dizer que há um maior interesse de pessoas sobre a história da humanidade.

“Em narrativas como filmes, séries e romances, a história causa um certo fascínio. Na escola, a relação é completamente diferente. Muitos alunos não gostam, não se envolvem, não são cativados pelo conteúdo”, alerta Júlia Moreira, historiadora e mestre em Educação pela Universidade do Wisconsin.

Segundo ela, o debate mais valoroso que um professor pode levar para a sala de aula a partir de “Game of Thrones” é sobre valores que, na verdade, perpassam a atualidade. “Esse é um seriado muito interessante para discutirmos questões do presente, especialmente no que diz respeito ao machismo, homofobia, racismo. Nele, circulam uma infinidade de discursos que são contemporâneos – e ser contemporâneo não significa não ser objeto do ensino ou estudo da história”.

 

Além da diversão

 

 

Na ficção, mulheres são fundamentais para os rumos de guerras e arranjos políticos

Uma das características mais interessantes de “Crônicas de Fogo e Gelo” é a força das personagens femininas – em direção contrária ao senso comum da historiografia de submissão das mulheres em épocas anteriores ao século 20. Cersei, Arya, Daenerys e Sansa são alguns exemplos.

De acordo com Cássio Araújo Rocha, Martin está em sintonia com a produção historiográfica da atualidade. “Nas últimas décadas, pesquisadores de diversas nacionalidades e correntes historiográficas têm demonstrado como as mulheres puderam, em praticamente todos os momentos da história, subverter os sistemas e as hierarquias opressoras de gênero e construírem modos de vida particulares de resistência ás diferentes formas de patriarcado, claro que sempre com muito sacrifício e de modo precário e efêmero”.

Essa nova preocupação dos pesquisadores é importante para tentar resolver o que Júlia Moreira chama de “grande abismo que temos na historiografia”. “Mulheres resistiram de infinitas maneiras ao longo da história, reinventaram-se, criaram, influenciaram, lutaram, modificaram, mas essa conversa histórica ainda é muito pequena e pouco acessível. Mesmo porque ainda vivemos em um cenário limitador no que diz respeito aos direitos das mulheres”.