O teatro é “como uma religião sem Deus: pequenas reuniões de pessoas, que se juntam às 8h da noite, em todas as partes do mundo, a pensar, a sentir, de uma maneira especial”. Define Guillermo Calderón, dramaturgo e diretor chileno, que o público de outros festivais internacionais de teatro no Brasil já conhecia e aclamava o trabalho, mas que o público belo-horizontino só pôde conhecer agora.

Trazido finalmente até aqui com “Villa + Discurso”, o teatro de Calderón impressiona: através das redes sociais, tem sido apontado como, senão o melhor, um dos melhores desta 11ª edição do FIT-BH – que termina neste domingo (24), escalando 12 sessões de dez espetáculos, isso sem contar as atrações da Virada Cultural, que se estendem até o meio-dia (mais informações no roteiro).

Suas peças teriam chegado a 25 países. Elas tratam de temas universais ou tem uma cena esteticamente interessante a muita gente?

Os festivais internacionais também têm muito interesse em temas locais, eles não precisam ser universais. O público que vai a festivais internacionais é muito intelectual e está interessado no que acontece em outros lugares do mundo. E eu também espero que nosso trabalho seja esteticamente interessante.

Você disse ter sido motivado a fazer “Villa + Discurso” porque nunca houve um processo de apuração do período da ditadura no Chile, um levantamento claro sobre a época. Como se uma pedra fosse jogada sobre ele, e o teatro fosse uma maneira de confrontar isso. Você está seguro que é melhor abrir feridas que esquecê-las?

A sociedade não precisa abrir feridas, elas já estão abertas, o que precisamos para fechar as feridas é verdade e justiça. No momento, temos no Chile dois relatórios sobre a violência e os crimes políticos, sobre as vítimas diretas de violações de direitos humanos. Mas eles não são a verdade completa, são a descrição de casos individuais. É somente a metade da verdade, a outra metade é saber quem praticou isso e levar à justiça.

Villa faz pensar que a democracia é um caminho muito exigente, muito conflituoso também. Para você, é um caminho que deveria ser aperfeiçoado ou trocado por um outro?

No Chile não temos uma democracia 100%, a nossa Constituição política é de1980, da época da ditadura de Pinochet. É uma constituição com muitas imperfeições (e cita o sistema de representação das coligações, que levaria a direita, minoritária, a ter a mesma representação dos partidos democráticos, majoritários; assim, quando a democracia chegou ao poder, foi impossível fazer as reformas que o povo desejava e a direita seguiu no poder).

Curiosidade: por que você pede que o público não use celular no intervalo de “Villa + Discurso”?

Porque as atrizes permanecem no local e trocam o palco cênico. É parte da peça, parte da performance, tem uma significação dramática. Não são os técnicos que mudam o cenário. Se você fala ao telefone, interrompe as atrizes.

Que significa que as atrizes façam a troca e não os técnicos?

A ideia é que as três atrizes de Villa transformam-se na presidente (Michelle) Bachelet. Além da transformação do cenário, é uma transformação de personagem.

Tenho a impressão que muitas vezes o texto de “Discurso” lembra um poema irônico e o que os americanos chamam de private joker, piada particular, que no Chile ele tenha muito mais significados do que se pode alcançar aqui. O que faz com a peça gere interesse aqui também: pelo que remete à nossa história ou pelo interesse por sua obra?

Primeiro, tenho que dizer que eu estou interessado na história e na política de todos os países. Se vejo um filme como “Cidade de Deus”, por exemplo. Não sei nada do Rio de Janeiro, nada sobre as favelas, nada sobre a história do jornalismo, dos grandes jornais do Brasil, mas estou interessado, quero saber sobre a realidade outros países. E eu espero que o público de todos países esteja interessado em conhecer a história de outros países. Em segundo lugar, em todos os países existe uma situação conflitiva quando os governantes progressistas, socialistas, de esquerda, por exemplo, chegam ao poder e têm que administrar o estado político e o sistema econômico capitalistas, que produzem muitas injustiças. Sei pela história de Lula que quando uma pessoa de esquerda chega ao poder gera muitas expectativas de transformações sociais profundas, mas na realidade não as transformações não acontecem porque as bases do sistema seguem as mesmas. Então, há uma frustração em muitas pessoas e os governantes mesmos sentem contradições muita intensas também. E, por último, para um país e para mim também, é muito intenso ter uma presidente mulher pela primeira vez e uma presidente mulher que foi torturada. Então essa comparação entre o Brasil e o Chile de hoje é bastante direta.

Se diz que haveria uma tradição teatral muito intensa no Chile. Você se sente parte ou à parte dela?

Me sinto totalmente parte da tradição teatral política do Chile. O teatro chileno é bastante político e eu não me sinto parte de uma geração, mas sim da tradição política do teatro chileno.

Você gostaria de destacar nomes dessa tradição, com os quais você se sente mais influenciado?

Poderia lembrar Isidora Aguirre, Juan Radrigán e Teatro de la Memoria.

Você disse ter vindo 15 vezes ao Brasil. Já se sentiria à vontade para citar alguma característica ou singularidade do teatro e do público de teatro do Brasil?

Sinto que o público brasileiro é muito sofisticado, já viu muito teatro, de muita qualidade, então, ele é exigente. Aqui há muita imprensa, muito crítico, muita discussão intelectual das peças. E também uma tradição política muito importante. Por isso, quando apresento meu trabalho aqui, sinto que estou falando num mesmo nível.

Você encontra interlocutores?

Totalmente. E - pra mim isto é importante -, nos últimos cinco anos o Brasil está muito interessado no teatro latinoamericano. Estava interessado antes, o que tem a ver com a realidade que o Brasil está crescendo, se tornando uma potência latinoamericana e mundial, então, está tendo novas responsabilidades culturais, interessado em saber o que está acontecendo culturalmente na AL. O público daqui compreende o espanhol, estamos fazendo legenda, mas ele só precisa ler a metade para entender, a outra metade compreende pelo que ouve. Então, o portunhol no teatro está crescendo e o intercâmbio do teatro latinoamericano nas cidades do Brasil onde há festivais vai crescer.

Vi que você passou um período de estudos em cinema nos Estados Unidos. Cinema é algo que lhe interessa fazer, TV também?

Sim. Ano passado trabalhei como co-roteirista de “Violeta vai ao Céu” (previsto para entrar em cartaz no Belas Artes), um filme que ganhou um prêmio importante no festival Cine Ceará. Foi meu primeiro trabalho importante em cinema (ele fez trabalhos menores antes), e agora vou seguir escrevendo roteiros para filmes e TV também. Gosto muito disso, é um sonho.

Você não tem problema com encomendas ou prefere estar de fato envolvido com um projeto, que seja ideia sua etc?

Só dirijo os trabalhos que escrevo no teatro, mas em fevereiro e março deste ano trabalhei na Alemanha, no teatro de Dusseldorf. Pela primeira vez escrevi uma peça que não era ideia minha. Esta era inspirada numa história curta, um conto de Heinrich von Kleist (1777-1811), chamado “Terremoto no Chile”. Eles queriam estabelecer um nexo entre um autor chileno e a realidade alemã e me propuseram. Escrevi e dirigi.

Quais aspectos do comportamento humano deveriam ser mais abordados pelo teatro?

Acho que o teatro tem tentado abordar de tudo, mas certas coisas para o teatro são difíceis. Por exemplo, o realismo mais radical, o realismo das câmeras. A eloquência e a força das imagens é difícil representar no teatro. Por exemplo, a imagem icônica de uma criança morrendo de fome. Você pode ter essa imagem no palco, mas esse é o domínio da linguagem audiovisual. O teatro tenta explorar de tudo, mas conhece suas limitações.

O teatro ainda cumpre um papel essencial na sociedade ou se transformou em uma outra modalidade de entretenimento?

O teatro sempre tem uma relação conflitiva, porque muitas vezes se encontra no limite entre entretenimento e arte. Gosto de pensar que faço teatro de arte. E acho que o teatro está perto da morte, mas ainda tem um papel fundamental, um pouco absurdo e necessário. É como uma religião sem deus: pequenas reuniões de pessoas, que se juntam às 8h da noite, em todas as partes do mundo, a pensar, a sentir, de uma maneira especial. O que você pode experimentar no teatro é único, não é possível haver nas outras artes.

Por que razão não pode?

Quando você põe uma questão no palco, na presença dos atores, com emoção especial, com concentração intelectual, é possível pensar esta questão de maneira especial e única. Sempre tenho ideias e pensamentos políticos que gosto de pensar. Penso política naturalmente, mas quando tomo estas ideias e elaboro elas continuam as mesmas. No palco, elas parecem infinitamente mais complexas, mais reais, mais lúcidas, se esclarecem mais que na minha cabeça. Não é uma experiência só minha, é coletiva. O palco é transformador, é uma forma única e especial de ampliar as questões e de pensar a realidade.