Em 2008, após 12 anos de atuação profissional no teatro, o espanhol Roger Bernat decidiu trabalhar só com dois parceiros, nenhum deles ator e repassar ao público a incumbência de ser protagonista. "Domínio Público", que vem ao 11º FIT cumprir oito apresentações até domingo (24), é uma dos quatro títulos que seu núcleo produziu desde que "cambiou de lógica". Nele, o público toma o lugar dos atores, se empenha num jogo em que as regras estão definidas de antemão e são repassadas através de headphones.

Um número limite de 135 pessoas pode participar de cada sessão do que Bernat denomina "juego" e "experiência de ficção". Sua intenção prioritária é que os participantes se divirtam. "Quanto melhor ator alguém for, menos se divertirá", adverte o diretor e locutor da performance coletiva, que oferece instruções em espanhol e português.

Convencido que o teatro do século 20 privilegiou psicologismos, relações amorosas e individualismo, Bernat dispõe em "Domínio Público" uma chance às relações de comunidade – possibilidade, diz ele, que só o teatro teria condições de oferecer entre as artes. Como na comedia dell’arte e no teatro que o próprio Shakespeare praticou: em vez da sala escura, do convite a esquecer o que se é e de onde se vem, uma relação clara e direta com os fatos do palco.

Desde o final do século 19, quando o compositor, maestro e diretor de teatro Richard Wagner deliberou por apagar as luzes da sala de concerto, o teatro transformou sua relação com o público. Nietzsche teria repudiado a novidade: achava que, fascinado com a música que emergia do escuro, o espectador perderia contato consigo e com os demais espectadores. Como se vivessem um transe.

Esta relação se prolongaria até hoje, acredita Bernat, na relação com a TV e as telas de celular. A performance que ele dirige restabeleceria o senso de conjunto, ao propor agrupamentos de espectadores conforme suas origens, seu background. O juego concebido por Bernat estimularia a distinta plateia a quebrar regras e reconfigurar seu próprio espetáculo.

"Translunar Paradise"

Foi lendo um poema de W. B. Yeates – sobre um sujeito sozinho e amargurado, especialmente desgostoso com "os sintomas da velhice" –, enquanto sofria a perda do seu pai, acometido por um câncer, que George Mann vislumbrou a semente de "Translunar Paradise", do grupo Theatre Ad Infinitum, atração do Teatro Marília, até sábado.

Para transpor ao palco essas dores que lhe serviram de inspiração, Mann buscou realizar algo que não fosse piegas. E ultrapassar o paradoxo de partilhar com muita gente um sentimento que ele vivera até então em solidão, sendo que é costume dos ingleses esperar que se sofra calado, sempre parecer forte, aguentar aquilo que quase não se dá conta.

Com três atores em cena (Kim Heron, Deborah Pugh e o próprio Mann), "Translunar Paradise" é a quarta montagem do grupo inglês, que apronta sua quinta produção para estrear em 2013. Esta é a primeira vez em que utiliza máscaras, mas "embasado num trabalho corporal muito forte", para poder abdicar das palavras. Com ele viveria um verdadeiro "pingue-pongue" de país em país. O que pode sugerir uma lida de sonho para muita gente, mas não para quem depende do que produz para sobreviver.