Não foram poucos os conhecimentos adquiridos que reverberaram (e ainda reverberam) na alma do fotógrafo e pesquisador autodidata Lori Figueiró, durante seu périplo pelo Vale do Jequitinhonha – mais especificamente, pelo chamado Médio Vale. Mas, entre eles, um em particular se destaca, por sintetizar o espírito que permeou suas andanças. O conhecimento em questão foi repassado pela escultora Josefa Alves dos Reis, a Dona Zefa. "Todos os dias me lembro de um versinho dela, dentro da Oração da Mãe Terra, que fala da existência do fogo dentro do coração, que Deus teria colocado", diz ele, que está lançando agora um belo registro de sua empreitada: o livro "Reflexos ao Calor do Vale".

Antes de seguir em frente, cumpre esclarecer que, ao falar de Deus, Lori vai logo emendando: "Estou me referindo a uma força superior, não a um senhor de barbas brancas sentado em um trono. É uma força que está acima de nós, e que remete à responsabilidade que temos com o outro". Não por outro motivo, lá está, no inicinho da obra, o verso que tanto impactou Figueiró. "Deus/quando preparou o homem/ele pôs o fogo no coração do homem/o fogo tá dentro de nós/o amor é o fogo/que nunca se apaga".

A julgar pelo ânimo que permeia a fala de Figueiró ao destrinchar seu projeto, é indubitável que o fogo que o alimenta caminha em direção diametralmente oposta à extinção. Iniciada em São Gonçalo do Rio das Pedras há sete anos, a missão de Lori teve como pilar a visita a moradores da região, mais tarde ampliada geograficamente. Mas não uma visita protocolar. Lori faz questão de entrar nas casas, partilhar o cotidiano de famílias que, muitas vezes, vivem sem energia elétrica ou contato com as novidades tecnológicas hoje tão banais nos grandes centros. "Uma coisa é estar passando pela estrada e fazer um registro de uma cena, outra, fazer o registro dentro da casa. Falo que meu olhar está para o interior, e, aí, a pessoa acaba se abrindo para você", advoga.

No meio do caminho, nosso herói se deparou com pessoas do naipe da encantadora Dona Helena Siqueira Torres, 79 anos, habitante de São Gonçalo do Rio das Pedras, que já foi - acredite! - escritora de cartas ("como a personagem de Central do Brasil", diz, referindo-se a Dora, papel interpretado por Fernanda Montenegro no filme de Walter Salles) e hoje mantém em sua casa, no quarto que foi da mãe, um rico presépio montado o ano inteiro (salvo outubro, quando é feita a limpeza das peças, uma a uma, e as paredes do cômodo recebem nova pintura). "Ela não gosta de viajar, passa a vida lá, e inspirou meu primeiro trabalho apresentado ao público, a exposição 'Dona Helena e Seus Saberes' (que ocupou o Museu do Diamante, em Diamantina)". Como escrevinhadora, Dona Helena costumava caprichar nos pedidos de casamento ou namoro. "Ela mesma criava uns versinhos. Fiquei muito amigo dela, e ainda a ajudo a receber as folias de Reis de Milho Verde, com o tradicional lanche que os anfitriões oferecem aos componentes".

Outra exposição na qual Lori apostou suas fichas teve como foco a já citada Dona Zefa, cujo talento reverbera na confecção de esculturas em madeira.. "Essa mostra aconteceu no Colégio Libertas, em Belo Horizonte, se chamou 'Dona Zefa e Sacralização do Cotidiano'", localiza. Mas outras figuras marcantes cruzaram o caminho de Lori. Caso de Dona Ilídia Batista Lopes, um senhora já centenária que, de tanta felicidade com a visita de Lori, declamou declama poemas da sua infância. "Ela tem uma memória muito boa. Aos cem anos, ainda capina o quintal, cozinha e entoa cantigas de trabalho, que eram muito comuns nessa região, cantigas de colheita". Lori também faz questão de ressaltar outra mulher, Sanete Esteves de Souza, "que tem entre 40 anos e que atualmente está grávida, do décimo quinto filho. Pertence a um quilombo, e organiza os quilombos da região, no sentido de fazer associações da comunidade. É uma senhora muito bonita, elegante, fiquei muito impressionado!", confessa Lori, acrescentando que sua avó teve 13 filhos, o que o inspirou a fazer um poema homenageando as mulheres do Vale. "O poema homenageia 13 mulheres, como Sanete, Geni do Congado, Maria dos Céus... E a partir deste poema, estamos montando um espetáculo (uso a palavra "espetáculo", mas é uma coisa simples), que será montado paralelamente a uma exposição das fotos", especifica

Já quanto a publicações no mercado editorial, Lori revela que a ideia é fazer uma trilogia a partir de "Reflexos ao Calor do Vale" . "Estamos montando o segundo volume, que vai ter dois textos meus, prontos já", afiança.

"Falo sem demagogia, é um trabalho que não me dá retorno financeiro, mas já me acostumei a levar uma vida simples. Uso minha botinha Zebu e uma mais velha com a qual vou para o Vale. Estou bancando esse projeto, mas faço questão de refazer o caminho para levar os livros: a minha relação com eles, como disse, passa pelo afeto", diz ele, que também já presentou, com a publicação, amigos como os artistas Déa Trancoso e Rubinho do Vale.

Em tempo: tendo perdido a mãe muito cedo, Lori viu sua família se dispersar. Por um tempo, trabalhou com o pai. Adolescente, diferenciava-se da maioria dos colegas de sua idade por preferir a leitura ao entretenimento puro e simples. Mergulhou no universo de nomes como Guimarães Rosa e, adulto, chegou a ter uma pequena pousada, mais tarde vendida. Lori tentou se dedicar à lavoura em sociedade com um casal de amigos, mas, ante a inviabilidade de manter a plantação orgânica, acabou desistindo. Indeciso ante qual caminho seguir, lembrou-se de uma paixão latente: a fotografia. E se jogou. O resultado, submetido agora ao olhar do público também em formato livro, prova que a intuição estava "pra" lá de certa. Dá para não se enternecer ao se deparar com a elegância e o estilo (e o sorriso) de Dona Ana Catarina de Souza, na capa da publicação? E o que dizer do riso solto de Corina Esteves Nunes, de Lagoa Grande, ou das feições encantadoras de Iany, a fofíssima filha da citada Sanete?

Portas abertas para registrar, em diversas plataformas, a inequívoca riqueza da região 

Inicialmente, o objetivo do diamantinense Lori era trabalhar com idosos. Fazia, pois, visitas, reuniões, com intenção de promover, neles, a autoestima. "Ouvir o que tinham a passar para agente, e que é sempre uma coisa inesperada. Um dia ouvia versinhos de um, em outro, modinhas. O assunto também ia muito para orações, benzeções...".
Fascinado, Lori ficou cerca de dois anos fazendo registros, gravando áudio, alguma coisa de vídeo. "Tudo muito caseiro, nem um bom gravador ou câmara de vídeo a gente tinha", repassa ele, que, animado com o que ia vendo, fundou o Centro de Cultura Memorial do Vale, com a intenção de sistematizar tais registros. Mas veio o ano de 2010 e Lori sentiu-se um tanto "preso" por estar em contato apenas com moradores da citada região.
Foi quando afivelou a mala e rumou para o Médio Vale, nas proximidades de Araçuaí. "Foi meio que um desejo. Meu pai era de Francisco Badaró e passei parte da infância lá, assim como em Minas Novas. Foi onde, adolescente (hoje contabiliza 53 anos), ia descobrindo a vida, nos festivais de música, feiras e mercados". Nas chamadas casinhas de cultura regionais, algumas ligadas ao ChildFound, que apadrinha crianças carentes, ele travou contanto com as brincantes, "que são mulheres, algumas de meia idade, que dão assistência às crianças, e que abriram as portas, para que eu pudesse entrar nas casas".

‘São pessoas valorosas, sábias, sensíveis e trabalhadoras’

Lori é enfático ao discernir: "Minha relação com as pessoas registradas no livro passa pelo afeto". Tanto que a conversa com a reportagem aconteceu tão logo ele voltou para casa após mais uma etapa de sua atual missão: levar, a cada um dos retratados, um exemplar da obra. "Eles ficam alucinados com o livro", diz, sem esconder que, nesta volta, tem tido também surpresas desagradáveis. Posto que alguns dos fotografados já eram muito idosos à época do clique, Lori soube do falecimento de alguns. "Machuca muito", confessa.
Mas o gás para seguir adiante vem de manifestações espontâneas de gente como Dona Rosa, que, mesmo tendo sofrido um derrame, fez questão de, aos prantos, dar um abraço ao rapaz que a eternizou em foto. "São pessoas valorosas, sensíveis, gratas, trabalhadoras, sábias, mas que, infelizmente, nos dias atuais, estão à margem da sociedade", lamenta.

Companheira inseparável de jornada

Companheira de vida e parceira na empreitada a que Lori se propôs, a pedagoga e bailarina Sandrinha Barbosa também não disfarça o entusiasmo com a riqueza do material carinhosamente colhido no Médio Vale. Ela, aliás, é responsável por um dos desdobramentos do projeto, o espetáculo "Por Ilídia: O Corpo Como Manifestação, Registro e Memória". "A fotografia, no projeto, é uma ferramenta para acessar também outras linguagens artísticas", diz a mineira, nascida em Formiga e radicada em BH há 27 anos.

Para "Por Ilídia" sair do papel, entraram em campo novos parceiros, o ator (formado pela Fundação Clóvis Salgado) Diego Alves, nascido em Araçuaí, e Vera Bispo, também dançarina. A partir de um poema apresentado por Dona Ilídia, o primeiro trabalho já está pronto. "Nossa questão é meio roseana, o universal dentro de um sertão, ou seja, uma cultura universal na cultura de um povo. E, no nosso caso, a escolha foi o Jequitinhonha". E o que justifica a escolha de Dona Ilídia em meio a tantas outros mulheres valorosas, para usar uma palavra empregada por Lori? O fato de Dona Ilídia morar em São Gonçalo do Rio das Pedras, sede da ONG Centro de Cultural Memorial do Vale, que o casal comanda. "Não foi uma escolha arbitrária, há outras tantas pessoas fantásticas sim", afirma Sandrinha.

"Por Ilídia" tem coreografia assinada pelas duas, Sandra e Vera, e teve como alavanca um poema apresentado por Dona Ilídia, mas de autor ainda não identificado. "Ela nos mostrou esse poema, que estava em um caderno manuscrito, que deve ter uns 70 anos, e que foi de uma escola, com uma letra de uma pessoa nitidamente em processo de aprendizagem. Pesquisamos, mas ninguém sabe o autor, ainda que uns e outros da região saibam recitá-lo. Esse poema fala de uma menina que ganhou uma sombrinha do padrinho, e de como ficava elegante. Nosso trabalho começou por ir à memória do objeto - a sombrinha".

Outro trabalho que Sandrinha toca a partir dos cliques do marido estabelece uma conexão com três contos de Guimarães Rosa, sempre com prólogos escritos por Lori. "Esse trabalho é uma confluência de linguagens. Lori, no prólogo, cita algumas pessoas do Médio Vale (mais uma vez, nunca escolhas arbitrárias), e as relaciona com personagens de Guimarães Rosa. É uma maneira de homenagear aqueles que vivem lá", conclui ela.