Das outras vezes que a Disney aportou na América do Sul, a partir de suas animações, a cultura local geralmente era vista por olhos estrangeiros, como os de Pato Donald em "Você Já Foi à Bahia?" (1944) e do vovô rabugento de “Up – Altas Aventuras” (2000). Em cartaz nos cinemas, “Encanto” não tem nenhum elemento de fora para estabelecer o atrito com aquela realidade atípica e servir como um dos motores da narrativa.

Passado na Colômbia, o filme ousa ao evocar o realismo fantástico de Gabriel García Márquez, principal escritor daquele país, apresentando uma fábula sustentada sobre a trajetória de uma família aprisionada pelo que o deveria ser uma dádiva. Encanto é uma cidade mítica como Macondo e os Madrigal são a versão dos Buendia descrita no clássico “Cem Anos de Solidão”, livro mais celebrado de Márquez.

A família vive ciclicamente seus rituais a cada geração, dando continuidade à missão de ser o sustentáculo da cidade que fundou após se livrar de um autoritário senhor de terras. Eles vivem nas montanhas, um lugar que ganha vida própria, a começar por onde moram. A protagonista Mirabel se torna um problema ao nascer sem nenhum dom, diferentemente de seus avós, pais, tios e primos.

 

 

Esse contraste entre Mirabel e os demais integrantes é o principal ponto de desenvolvimento da narrativa. Quando Mirabel sofre diversos tipos de preconceitos por ser “diferente”, o filme faz uma leve  crítica à religião e seus dogmas, em que interpretações ortodoxas levam à própria falência da instituição – no caso, a família, que se mostra cada vez mais cega e intolerante na busca por preservar as  tradições.

A partir de Mirabel, “Encanto” trabalha temas fortes sem perder o humor e a beleza da cultura colombiana. Entre as questões estão a necessidade de mudança de pontos de vista, de que é preciso dar alguns passos para trás antes de seguir em frente e que um dogma não representa, necessariamente, a perda de liberdades individuais. O filme não tem um grande vilão, mas sim vários inimigos internos.

Apesar do universo mágico que permeia a narrativa, referenciado pela literatura de Márquez, “Encanto” é uma das obras mais realistas da Disney, ao enxergar na família um mensageiro equivocado de sentimentos e atitudes, passadas adiante sem maiores julgamentos. Como diz o filme a determinada altura, é preciso abrir os olhos para perceber qual o verdadeiro dom.