O espetáculo “Pá de Cal (Ray-lux)” inicia temporada no Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte - CCBB, nesta sexta-feira (22). A obra fica em cartaz até 15 de novembro, sempre de sexta a segunda, às 20h. A trama gira em torno da morte do membro mais jovem de uma família e de como serão terceirizadas as responsabilidades nas decisões seguintes ao trágico acontecimento.

“Pá de Cal (Ray-lux)” é o novo espetáculo da Cia Teatro Independente, que em 2021 completa 15 anos de existência. A dramaturgia é do premiado autor Jô Bilac, a direção de Paulo Verlings e o elenco conta com Carolina Pismel, Isaac Bernat, Orlando Caldeira, Pedro Henrique França e Kênia Bárbara no elenco,

O espetáculo narra uma relação “familiar” por uma perspectiva diferente. “Através das representatividades discutimos o quanto nós, hoje, na contemporaneidade, terceirizamos nossas relações", comenta o diretor Paulo Verlings, também responsável pelo argumento e idealização da peça. “Atravessamos questões como culpa, ausência de diálogo e afeto, a partir de um acontecimento trágico”, completa.

A expressão “Pá de Cal” quer dizer que fará uma última referência a um assunto não prazeroso. Já “Ray-lux” se refere ao nome de uma urna funerária tão cara, que custa o preço de um automóvel.

Trama

A trama parte do suicídio de um personagem central, ou seja, ele está ausente. O mesmo acontece com suas irmãs que mandam representantes para a reunião “familiar” na qual irá se definir o destino do pai dessa família e também o destino da mãe do morto (uma antiga empregada), que também manda seu representante. O morto também é representado por uma pessoa com quem conviveu em terras estrangeiras. Além de uma morte traumática, a peça lida com a terceirização de responsabilidades e de como essas representatividades interferem na boa condução das questões.

Toda a ação se desenrola na casa onde mora o patriarca, local que é foco de uma disputa pela posse, revelando interesses divergentes entre as partes. Conflitos inesperados emergem a partir desse encontro. Com o passar do tempo, as relações entre pai e seus filhos – representados – se revelam aos espectadores cada vez mais límpidas e latentes.

Por conta da temática, Jô Bilac desenvolveu uma cena na qual os personagens realizam uma Constelação Familiar. “A ideia surgiu intuitivamente, ouvia falar, minha mãe havia feito 'Constelação familiar' e a forma que descrevia a situação se co-relacionava diretamente com o que eu estava pesquisando dentro do espetáculo: o desdobramento da ideia/palavra/sentido da 'representatividade'. Ali é uma experiência singular, não é teatro, mas existe lugares de representação, contracenação, atmosfera, tem um 'gira' que acontece ali que é muito próxima da 'gira' que o teatro evoca”, comenta Jô Bilac.

Tema delicado

Com “Pá de Cal (Ray-lux)”, o Teatro Independente se debruça sobre um tema delicado, mas emergencial e a favor da vida. O Brasil está na contra mão da tendência mundial em relação aos índices de suicídios. Dados da OMS mostram que, por aqui, as taxas de suicídio foram 7% maiores em 2016, último ano da pesquisa, do que em 2010. Já o índice global teve queda de 9,8%.

Quanto à linguagem interpretativa, o encenador Paulo Verlings, juntamente com seus atores, se concentram em explorar performances naturalistas, porém não realistas, com fisicalidade intensa, para que desloquem o espectador, através de uma relação estética cotidiana de ação, para o universo dos vínculos catárticos em que se baseiam as relações familiares ali abordadas.

Para a escalação do elenco a Cia pensou em arquétipos bem distintos para formar um elenco brasileiro, com muitas diversidades, personagens reais, pessoas críveis. “Colocamos em cena o retrato real da miscigenação do Brasil”, comenta Verlings.

Ao comentar a direção, Verlings diz que “cada processo é único. Os espetáculos tomam seus espaços naturalmente na minha mente e o processo criativo se dá de forma muito natural e intensa. Em 'Alguém acaba de morrer lá fora', também do Jô Bilac, minha primeira direção, já era uma dramaturgia que me interessava explorar esteticamente. Já 'ELA', com dramaturgia de Marcia Zanelatto, é um argumento idealizado por mim, por conta do meu interesse sobre a síndrome de mesmo nome. Em 'Pá de Cal', eu também idealizei o argumento e o Jô Bilac comprou a ideia, transcendeu e construiu uma dramaturgia potente, ágil e intrigante.”

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