O espectador já sabe, logo nas primeiras cenas, o desfecho de um dos personagens principais de “Convidado de Honra”, filme do realizador Atom Egoyan que será lançado hoje exclusivamente nas plataformas digitais de compra, aluguel e assinatura.

O cineasta egípcio, naturalizado canadense, despontou na metade da década de 1990 com obras mais enigmáticas, de atmosfera soturna, que geralmente tematizavam as múltiplas formas de observar um acontecimento, exibindo as várias verdades.

É exatamente o que “Convidado de Honra” enfoca, a partir de uma trama de abuso de poder, envolvendo uma jovem professora de música vivida por Laysla de Oliveira, atriz canadense de pais mineiros. Esse dado ocupa apenas a superfície da narrativa.

O que interessa a Egoyan está na base do acontecimento policial: um trauma infantil que liga a personagem ao seu pai (David Thewlis), um honesto funcionário de Vigilância Sanitária encarregado de inspecionar restaurantes, muitos deles grã-finos. 

A maneira rígida como o pai cumpre o seu trabalho, que nos leva a conceber um homem solitário e sem outros interesses na vida, contrasta com as descobertas relatadas pela filha, ao confidenciar com um padre responsável pelo funeral do inspetor.

A notícia da morte é usada como fio narrativo, nos conduzindo a duas instâncias do passado. A soma dessas memórias e das conclusões da conversa com o padre apontam um filme perturbador, entre o sonho aterrador e a realidade de penitência.

É como uma daquelas fábulas infantis, cheias de elementos surreais representativos do mal que apontam para um final que não é, digamos, dos mais felizes. Essa atmosfera está presente em vários longas de Egoyan, como “Exótica” e “Memórias Secretas”.

Em “Memórias Secretas”, por exemplo, um caçador de nazistas sofre com problemas de Alzheimer. Um simples esquecimento afeta a sua visão das coisas. É o caminho seguido por “Convidado de Honra”, em que a verdade se torna algo muito subjetivo. 

Diferentemente dos filmes policiais, Egoyan não está preocupado em punir os verdadeiros responsáveis. A punição se dá de outra maneira, interiorizada, numa espécie de permanente autoimolação. E não termina quando alguns fatos vêm à tona.

As consequências gritam ao mesmo tempo que o diálogo entre pai e filha parece sempre respeitoso, nada dramático. É o aspecto que mais incomoda na história. Os pesadelos de Egoyan jamais nos afligem como um Jason Voorhees ou Freddy Krueger, em tom catártico.