A importância de Zé Kéti não está somente na qualidade de suas músicas, conhecidas na voz de intérpretes como Elis Regina, Jair Rodrigues e Nara Leão. “Ele é uma dessas pessoas que ajudou a dar maior visibilidade e amplitude à arte de grandes autores negros brasileiros”, destaca a cantora Fabiana Cozza.

A artista integra o projeto 'Zé Kéti – 100 Anos da Voz do Morro', realizado para comemorar o centenário do compositor carioca e mostrar a riqueza da trajetória do autor de 'Máscara Negra', clássico imortalizado nos “bons Carnavais brasileiros”, de acordo com Fabiana. O evento chega a Belo Horizonte nesta quinta-feira (19), no Centro Cultural Banco do Brasil.

São quatro noites de shows reunindo nomes como Zé Renato, Cristóvão Bastos, Casuarina e Moacyr Luz. Fabiana fará uma participação especial na apresentação de João Cavalcanti, no primeiro dia, cantando 'Acender as Velas' e 'Leviana'. Para ela, Zé Kéti foi um grande cronista de seu tempo, “um homem que tinha em suas músicas um posicionamento político muito claro, com muitas delas ainda atuais”.

Ao lado de Cavalcanti, Fabiana fará também um bate-papo sobre o tema 'Em tempo, machismo não é questão de opinião'. Ela usará as letras do compositor para falar do machismo presente no samba. “A ideia é trazer um pouco a questão do cancelamento, que, infelizmente, está muito em voga nas redes sociais”, detalha.

Fabiana pondera que as obras de Zé Kéti foram feitas numa época em que o machismo não era debatido. “Hoje a gente precisa estar atento a esse tipo de questão. Esse tipo de análise faz com que a gente reconheça os problemas da nossa história. Possivelmente, se Zé Kéti ainda estivesse por aqui, ele estaria diante de questões que não eram pautadas com tanta regularidade”, observa.

Fabiana já sofreu na pele essa perseguição machista no universo da música. “Qual mulher nunca sofreu com machismo? A gente é desacreditada e desabonada em nosso lugar de intelectualidade, nas mais diversas esferas. As nossas falas, muitas vezes, não são aceitas e compreendidas. Há um certo desprezo quando uma mulher tem um certo destaque profissional”.

“Tentando levar um dia de cada vez”, como mesmo assinala, Fabiana prefere não fazer muitos planos de futuro diante da situação política do Brasil e da pandemia. “É muito arriscado. Possivelmente nos colocaria num nível de sofrimento psíquico muito grande. O que temos são os sonhos”, afirma a cantora, que está programando um novo disco.

Relação com o cinema e o teatro

Em 1996, o cantor e compositor Zé Renato gravou o disco 'Natural do Rio de Janeiro', em homenagem a Zé Kéti. O ex-integrante do Boca Livre lembra que lançou o trabalho mais como um dever, “na tentativa de ajudar que a obra dele fosse um pouco mais reconhecida”.

Ele tinha acabado de fazer um projeto semelhante, dedicado a Silvio Caldas. O bom resultado o levou a continuar a ficar grandes personagens da música brasileira. “Foi quando me ocorreu Zé Kéti. Percebi naquele momento que a obra dele estava sendo desligada das novas gerações”.

Orgulhoso, apesar de ressaltar que não é nenhum artista “ultra super mega popular”, ele acredita que cumpriu  a missão, ao fazer com que pessoas de várias faixas etárias se aproximassem daquele que foi “um melodista fora do comum e compositor totalmente intuitivo”.

Pouco antes de subir ao palco do CCBB, Zé Renato falará sobre a relação do mestre do samba com o cinema brasileiro. “Ele colaborou não só como compositor, mas também ajudou na produção de vários filmes produzidos na época do Cinema Novo”, registra o cantor, referindo-se a um dos mais importantes movimentos do nosso cinema.

Zé Kéti teve participação em vários longas-metragens dirigidos por Nelson Pereira dos Santos, como 'Rio 40 Graus' e 'Rio Zona Norte', cuja história foi baseada na trajetória do compositor. “Ele era inquieto, conectando-se a espetáculos históricos, entre eles o 'Opinião', em que, ao lado de Nara Leão e João do Vale, atuou representando um dos diversos segmentos da sociedade”.

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