Primeiro veio a negação. Desde pequeno convivendo com as artes plásticas, principalmente com o pai Sérgio Machado, Francisco Nuk viajou pelo mundo, enveredou pelo rúgbi (esporte semelhante ao futebol americano) e pela marcenaria e retornou a Belo Horizonte disposto a trabalhar com mobiliário tradicional.

O mesmo pai que ele renegou, no aspecto profissional, foi quem lhe propôs uma importante reflexão. “A partir de uma provocação dele, eu passei a me contestar. Se continuasse naquele caminho, teria que seguir um padrão pelo resto da vida. Tudo que fosse fazer teria que ter as medidas, a ergonomia e a funcionalidade corretas”, analisa.

Assim nasceu em Nuk, há quase dois anos, uma inquietação surrealista, pegando aqueles armários confeccionados de forma milimétrica para envergá-los o quanto fosse possível, resultando em objetos estranhos e cheios de vida. “Surgiu a ideia de um fazer um armário, que, primeiramente, era só um móvel torto. Ele seria completamente inútil, com gavetas que não abririam”.

Parecia simples: bastava retirar a funcionalidade do móvel para que ele se transformasse numa peça escultural. Mas foi aí que o pai Sérgio entrou novamente em ação, sugerindo uma espécie de meio termo. O armário não poderia ter formas tortas e, ao mesmo tempo, oferecer gavetas que poderiam ser usadas?

“Isso gerou uma confusão total na minha cabeça, porque eu estava buscando algo inútil e havia conseguido dar alguma utilidade para ele, mas ela tinha o seu porém. As gavetas continuavam tortas, não tão utilizáveis como uma gaveta convencional. Mas se eu conseguisse guardar algo nele, deixaria de ser obra de arte”, observa.

Esse nó acabou sendo o ponto de partida para a pesquisa de Nuk – um sobrenome artístico que, por enquanto, ele prefere guardar para si a motivação. “Estava em xeque, como num jogo de xadrez. Me veio a discussão de que se arte precisaria realmente ser inútil. Só assim ela poderia ser considerada uma obra de arte?”, indaga.

Apesar do pouco tempo de trabalho, os móveis retorcidos do artista mineiro, produzidos num ateliê no bairro Bonfim, ganharam fãs. Um curador fez a ponte com duas importantes galerias – uma do Rio de Janeiro e outra de São Paulo. O primeiro desdobramento será uma exposição, que acontecerá a partir de 2 de setembro, no Rio.

Em Belo Horizonte, as obras não têm endereço comercial ainda. “Acho ótimo de alguma forma, porque, em relação ao mercado, esse eixo é um pouco mais forte”, destaca. Para quem quiser conhecer mais, o perfil no Instagram é um bom cartão de apresentação. Ele é bem ativo na rede social, postando incrementados vídeos sobre suas ideias.

NUK

Nuk tem ateliê no bairro Bonfim, em Belo Horizonte

Pesquisa questiona o fato de sermos impelidos a acumular coisas constantemente

Para quem tem a oportunidade de ver as obras de perto, as reações são bem distintas. Há quem trate como obra de arte. Outros enxergam um trabalho de design. Mas há quem faça uma classificação mais interior, se identificando com o objeto.

“A pessoa se identifica com aquilo ali. A peça se torna quase um espelho dela, uma relação de amigo. Parece que a obra cria vida. O que me faz muito feliz, pois tem relação com a segunda parte da minha pesquisa”, afirma o artista.

Ao dobrar o armário para um lado e outro, explorando as curvas, Nuk passou também a se identificar. “Comecei a enxergar ali um caráter, uma personalidade. De repente percebi que aquela peça era eu, no formato de um objeto”, teoriza.

Essa relação trouxe a perspectiva da utilidade dentro do universo de Nuk. “Para que e para quem eu preciso ser útil? O que é inutilidade? Percebi que a utilidade é mutável. Se tirar a utilidade de algo, automaticamente você cria outra para ela”.

A partir daí, surge outra questão: se a utilidade pode mudar a toda hora, o que é de fato inútil? A resposta, Nuk ainda não a tem. “Até hoje não consegui encontrar. A minha conclusão é que não existe o inútil por completo, nada é inútil por completo”.

Quando ele invoca o surrealismo, colocando uma gaveta eventualmente na posição vertical, ela não irá deixar de ser o que é. “Claro, não vai segurar (o que tem dentro), mas não deixa de ser gaveta. Basicamente é a mesma coisa de quando usamos caminhos diferentes”, analisa.

Uma linha tênue que permeia as próprias artes plásticas, na ótica do ex-jogador de rúgbi. “Ainda é uma atividade que não é tão bem-vista. Não é algo sólido, mas não deixa de ser fundamental”, compara, valendo-se também dos Jogos Olímpicos.

Ele cita o cita o efeito das medalhas de prata para Kelvin Hoefler e Rayssa Leal no skate, modalidade que faz a sua estreia em Tóquio. “O skate, assim como o surfe, que ganhou ouro, era um lugar marginalizado. Agora há uma nova perspectiva”, analisa.

São questões que estão ligadas ao fato de Nuk só criar cristaleiras, armários e gaveteiros. “As pessoas perguntam porque eu não faço uma mesa, uma cadeira. Não é essa a ideia porque eu gosto muito dessa temática dos objetos que guardam coisas”.

Na visão do artista, o próprio ser humano é um “guardador de coisas”, armazenando informações, expectativas e lembranças. A segunda parte de seu projeto indagará justamente a utilização desse tipo de objeto. “Por que precisamos acumular coisas constantemente?”.

Nessa perspectiva, a gaveta talvez só exista porque está dentro de barreiras, num lugar escuro e seguro, quase como uma preciosidade. “Quando, na verdade, nós não temos nenhum controle sobre isso, o que nos pertence ou não nos pertence”.