Um trecho importante de “Caros Camaradas!”, uma das estreias de hoje nos cinemas, evidencia a forma como as autoridades comunistas da então União Soviética determinaram o massacre da população de Novocherkassk (hoje cidade da Rússia), após o início de greve dos trabalhadores de uma fábrica de locomotivas, em 1962.

É um dos poucos momentos em que a protagonista Lyudmila, uma fervorosa adepta do Partido Comunista, não está em cena. As suas convicções políticas sofrem um abalo quando a filha desaparece durante a ação do Exército e da polícia secreta, buscando incessantemente informações em meio à tentativa de encobrirem o banho de sangue.

Dirigido pelo diretor russo Andrei Konchalovsky, que chegou a trabalhar nos Estados Unidos  durante a década de 80, em obras como sensível “Os Amantes de Maria” a fita de ação “Tango & Cash”, o filme tem na inclusão dessa cena mais um desabafo, pela possibilidade de mostrar autoridades soviéticas à frente de violentas repressões.

Tirando esse aspecto, “Caros Camaradas!” perde muito ao se desviar de Luydmila. Ao escolhê-la como a personagem central, a narrativa põe em primeiro plano o amor de uma mãe, que corre vários riscos para descobrir o paradeiro da filha, enquanto as suas posições políticas se desmoronam, num bem trabalhado deslocamento de realidades.

Além de perder elementos que agiriam em prol de um conflito mais interior, valorizando a troca de importâncias para Lyudmila, que parecia só ter olhos para o Partido, a longa cena que pavimenta o massacre surge desnecessária, já que os conflitos vividos por Luydmila trazem todas essas informações de volta.

No lugar de partilhamos as dúvidas e os temores da protagonista, Konchalovsky põe na mão do espectador o bilhete premiado da onisciência, escondendo apenas o que teria acontecido à garota. Mas como Luydmila não sai do âmbito político, “Caros Camaradas!” opta por um caminho de paisagens menos interessantes.