O crítico musical Rodrigo James era um dos presentes na plateia “absurdamente lotada” da Arena Anhembi, em São Paulo, um dos últimos shows realizados pela cantora inglesa Amy Winehouse, que faleceria seis meses depois, em 23 de julho de 2011, após consumir muito álcool. “Já era uma Amy completamente destruída”, lembra, ao comentar os dez anos de morte de um ícone da música.

James não quis esperar o bis, depois de ter passado toda a apresentação “para baixo”, como reflexo do que viu no palco. “Naquele final de carreira dela, parecia que a graça era ver a Amy cair no palco.  Grande parte do público já foi para o Anhembi com essa visão mórbida, de que ela fosse dar vexame. Ela não caiu ou bebeu no palco, mas se via nitidamente que era uma pessoa que não estava bem”, registra.

A despeito dos problemas particulares que sempre marcaram a trajetória, o crítico salienta que Amy, com  27 anos, tinha uma carreira muito longa pela frente. “O talento dela era infinito. A voz dela. Ninguém tira essa voz dela. Mesmo esse show de São Paulo, em que ela fez no piloto automático,  a voz estava ali, intacta. Sinto muito por não ter ouvido mais”, lamenta James.

Ao analisar o fato de Amy ter se transformado num fenômeno com apenas dois álbuns lançados, ele acredita que  a grande exposição na mídia tenha contribuído de maneira determinante. James assinala que os tabloides ingleses começaram a persegui-la desde o início. A fama de exótica, marcada por muita bebedeira, teria criado um foco, segundo ele. “Isso foi crescendo de uma maneira exponencial”, avalia.

Reabilitação
“Quando você fala de Amy Winehouse hoje, é inevitável lembrar de duas coisas: da música  e das baixarias. Uma coisa alimentou a outra? Talvez. Se a vida privada dela não tivesse sido tão exposta nos tabloides quanto foi, será que ela teria o mesmo sucesso?”, indaga o crítico mineiro. Não por acaso, a canção que a projetou (“Rehab”) fala justamente de uma mulher que está saindo da reabilitação.

“Quando a música foi lançada, ela já tinha problema, já estava nesse espiral, mesmo não sendo tão forte. Você enxerga uma verdade naquilo ali. Olhava para os jornais e falava que aquele rolê que ela estava cantando era a vida dela. O disco ‘Back to Back’ era muito autobiográfico. A música-título tem uma letra bem sombria, que reflete o momento que Amy estava vivendo”, comenta.

E o mais incrível, nas palavras de James, é que, apesar de tamanho baixo astral, as  pessoas se identificaram com aquelas letras. “Não eram letras que faziam o seu dia melhor, vamos dizer assim. Mostravam a vida dura de uma mulher em conflito. O sucesso pode muito ter vindo daí, do fato de todo mundo ter esses problemas e de ela exibir coragem de expor”.

Reciclagem do melhor do soul e do R&B

Rodrigo James lista dois fatores fundamentais para Amy Winehouse ter estourado no mercado: o estilo de música e o encontro com o produtor Mark Ronson, o nome por trás de “Back to Black”, lançado em 2006, três anos após a artista surgir com o primeiro disco, “Frank”, que “passaria despercebido” se “BTB” não tivesse atingido o topo das paradas.

“Se você  pegar o ‘Frank’ e comparar com o ‘BTB’, este é muito mais amarrado, tem  mais canções fortes e inesquecíveis. Eu até gosto do primeiro, mas está muito claro que não é um disco à altura de ‘BTB’. Agora, a semente já estava ali. O Mark Ronson foi  esperto em pegar essa semente. Ele plantou e botou a água ali, deixando a planta crescer”, observa.

Obviamente, ressalta James, que o mérito não é exclusividade do produtor. “É de Amy, que era uma cantora espetacular. Ela foi quem deu início a essa nova safra de cantoras inglesas, em que quase dá para dizer que o mesmo tipo de som, com todo mundo transitando entre o pop e o soul, esse som que agrada gregos, troianos, novalimenses e por aí vai”.

Ele pondera que, se Amy tivesse adentrado pelo universo do rock, como fizeram Debbie Harry (Blondie) ou Patti Smith, o sucesso não teria sido o mesmo. “O som dela é mais palatável, agradando a todas as faixas etárias. Se você incluísse a música de Amy numa playlist qualquer de alguém não tão aficionado por música como nós, com certeza ela iria se destacar”, afirma.

Uma palavrinha mágica ajuda a compreender o sucesso da cantora: retrô. Para James, a música de Amy é uma reciclagem moderna do soul e do R&B. “A gente tem essa coisa de querer olhar para trás e consumir tudo o que nos fez felizes na adolescência, que é quando a gente se forma musicalmente. E o melhor da música negra e do soul está no DNA do som da Amy”, define.