Quando viu a “pimentinha” Elis Regina caminhando em sua direção, na gravadora Odeon, no Rio de Janeiro, Telo Borges passou a tremer igual vara verde. Se fosse uma tartaruga, já tinha entrado para dentro do casco, como ele mesmo gosta de gostar. Uma das maiores cantoras do país pegou-lhe pela mão e foi até outro estúdio e mostrou a versão que tinha feito para “Ventos de Maio”, composto por Telo.

“Fiquei tão emocionado que saí para chorar no banheiro, pois tinha vergonha de chorar na frente de todo mundo”, lembra o 10º filho da família mais musical de Minas Gerais. Foi na casa dos Borges, na rua Divinópolis, no bairro Santa Tereza, em BH, que o Clube da Esquina nasceu. Telo foi testemunha privilegiada desta história. Nesta entrevista ao Hoje em Dia, ele lembra passagens saborosas do movimento e do convívio de pura amizade entre os integrantes, além da emoção ao receber o Grammy Latino de melhor canção brasileira por “Tristesse”, em 2003.

Como é ser um dos irmãos mais novos da família Borges? Foi natural para você o interesse pela música?

Sim, a minha história com a música aconteceu de forma bem natural. Eu era muito novo e via toda a movimentação, quando o Bituca começou a frequentar e, por vezes, até morar em nossa casa, em Santa Tereza. Muitas vezes, ele chegava de São Paulo, onde ficava trabalhando para se lançar nacionalmente, e ficava lá em casa. O fato de terem preparado lá o “Clube da Esquina 1” fez com que o disco virasse a nossa comida e nossa bebida. A gente vivia aquilo o dia inteiro. Ora era o Lô e o Bituca tocando, ora o Marcinho fazendo letras. O Fernando e o Beto também iam para lá. Em 1970, eu tinha 12 anos. Era bem sapo (risos). Eu me interessava e gostava daquilo que eles estavam fazendo. Queria fazer parecido. Quando sobrava um instrumento e eles não estavam ensaiando, ficava tentando fazer alguma coisa, como um acorde. Foi tudo natural no sentido de eu querer copiar a história deles, que era muito intensa na minha vida. Não tinha como fugir disso.

Isso afetou de alguma forma o seu estilo também? Como você foi se descobrindo musicalmente?

Esse tipo de avaliação é difícil, mais tranquilo para quem vê de fora. Mas creio que me desgarrei um pouco da história deles, porque os meus ídolos foram se modificando. Comecei a gostar de coisas que eles não gostavam tanto. Essas influências foram moldando a minha história também. Éramos fãs de Beatles, Tom Jobim, João Gilberto e Miles Davis. Isso era um ponto em comum. Eles gostavam um pouco menos do que eu do JohnMcLaughlin, do Mahavishnu Orchestra. Eles gostavam mais do Jimmy Hendrix. Eu gostava mais da Janes Joplin. Mas, claro, carrego o DNA do Clube da Esquina. A base foi lá com eles.

O Toninho Horta costuma falar que a melodia da música mineira segue a nossa geografia montanhosa. Você concorda com esta ótica?

Ele fez esta comparação em relação aos outros compositores e músicos do Brasil. O carioca, por exemplo, tem uma melodia mais linear. Segundo o Toninho, o salto melódico de nossa música era para passar por cima das montanhas (risos). Eu concordo com ele. No caso do Clube da Esquina, o que foi fomentou foi uma junção das histórias do Lô, do Marilton e do Marcinho com o Bituca, da amizade deles. E depois foram chegando outras pessoas, como o Fernando, o Ronaldo Bastos, que era do Rio, o Beto, vindo de Montes Claros, o Toninho, que morava no Horto, do lado do Santa Tereza. O que fomentou mesmo foi a amizade e o gosto em comum, principalmente pelos Beatles. Foi a massa usada para fazer o alicerce do movimento. Neste alicerce, o cimento foi o amor pelos Beatles, que era um fenômeno mundial. Tudo ficou diferente depois deles. Acho que o “Nada Será como Antes”, do Bituca, foi uma referência ao mundo pós-Beatles. Ele nunca me falou isso, nem o Ronaldo Bastos, autor da letra, mas tenho essa impressão.

Falando em Bituca, ele era para você como um irmão mais velho?

Ele conquistou o direito de ser o 12º filho da família. Ele gozava da confiança irrestrita dos meus pais. Quando ele ia para o Rio, a gente pedia para ir com ele, pois o Milton tinha apartamento lá perto da praia. “Se sua mãe deixar”, dizia ele. E minha mãe deixava. Como a gente ia muitas vezes, principalmente eu e o Nico, meu irmão mais novo, o Bituca dizia que o Cristo Redentor via a gente chegando na cidade e botava as duas mãos na cabeça. “Agora é só aprontação”, falava. A gente zoava muito mesmo. Não só lá no Rio como aqui também. Éramos da pá virada, moleques de rua dos mais levados. Cheios de BO (risos).

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Com Milton Nascimento, Telo ganhou o Grammy Latino de melhor canção brasileira em 2003, por "Tritsesse" 

Foi numa música dele que você começou na música, aos oito anos, colocando a voz em “Milagre dos Peixes”, não é mesmo?

Foi numa destas viagens a passeio para o Rio. O Bituca estava gravando um disco lá e, numa bela tarde, ele disse que estaria indo para o estúdio e que, no dia seguinte, nos levaria. Pediu para não fazer bagunça no apartamento dele. A voltar, à noite, ele ensaiou uma música comigo e com o Nico. No momento da gravação, foi o maior barato, porque cantamos com a Clementina de Jesus. Era no estúdio da Odeon, que ficava ainda na avenida Rio Branco, no Centro. Não era aquele em Botafogo, em que gravamos vários discos.

Você tem esse dia ainda bem nítido na sua memória?

Eu lembro que era tudo muito festa. E criança tem um negócio: ela sempre quer algo em troca. Podemos fazer, mas depois ganharíamos quantos picolés, quantos sorvetes? Depois você leva a gente ao zoológico? Pode nos levar à praia? Eu lembro que estava impaciente para acabar a gravação e poder ganhar o meu presente. Agora não me recordo mais o que era.

A sua estreia na composição teve relação com o aparecimento de um disco voador. Como foi isso?

Esta história é surreal, mas é super verdadeira. (A aparição) teve repercussão no mundo inteiro. Eu lembro que, no Brasil, foi noticiado pela imprensa. Muita gente viu essa luz estranha no meio da noite, com alguns dando a certeza de que viram um disco voador. Eu estava sentado na porta de casa, na rua Divinópolis, e deveria ser umas oito, nove horas da noite. Observei que o corredor da casa em frente à nossa ficou totalmente iluminado. Passou um feixe de luz tão claro que aquilo me assustou. Neste mesmo dia, fiquei tentando criar alguma coisa. O Marilton passou por mim e disse para os outros: “Esse menino não está bom da cabeça, não. Olhem-no direito. Esse aí ficou doido”. (risos). Foi assim que nasceu o “Voa Bicho”.

A sua carreira musical começou a emplacar ao fazer trilhas para espetáculos de teatro?

Aconteceu por indicação do Yê, que tinha os contatos com um pessoal de teatro. Ele falou que tinha um irmão que estava compondo um monte de temas. E era mesmo. Estava muito dedicado, fazendo temas no violão e no piano, gravando em cassete. Fiz duas peças infantis com o mesmo grupo, o Teatro Reticências. Foram o “Viagem ao Faz de Conta” e “Flicts”, baseado no Ziraldo. Depois o Lô pegou dois destes temas e teve a ideia de juntá-las, virando o “Ventos de Maio”. Eu não sabia que ele tinha juntado. Num dia, durante a gravação do “Via Láctea”, do Lô, ele e o Marcinho me chamaram para mostrar uma música. E morreram de rir. A música ficou marcada pela gravação belíssima do Lô com a minha irmã, Solange, e depois pela interpretação épica da Elis Regina. Ela cantou de uma maneira que me fez chorar quando eu ouvi pela primeira vez.

Como foi este contato com a Pimentinha?

O Lô já tinha gravado o “Via Láctea”, com a música tocando nas rádios. E a Elis era amiga do Marcinho. Coincidiu de a gente estar gravando “Os Borges” na Odeon no mesmo que ela preparava “Trem Azul”, o penúltimo disco dela. Eram dois estúdios, um grande e um pequeno. Nós estávamos no segundo. Eu a via passando nos corredores todos os dias. Estava super feliz e simpática. Num determinado dia, ela entrou no nosso estúdio e veio caminhando na minha direção. Era muito tímido. Ainda sou tímido, mas na época era muito mais. Só faltou eu entrar para dentro do casco, como uma tartaruga. Quando ela ficou frente a frente comigo, perguntou se eu era o Telo. “Vem cá que eu vou lhe mostrar um negócio”, disse. Ela me deu a mão e saímos do estúdio de “Os Borges”, junto com o Marcinho, e fomos para o outro. Foi então que ela soltou a gravação do “Ventos de Maio”. Fiquei tão emocionado que saí para chorar no banheiro, pois tinha vergonha de chorar na frente de todo mundo.

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Para o músico, os Beatles foram o "cimento" na mistura que originou o Clube da Esquina 

Depois disso você passou a acompanhar os shows de alguns integrantes do Clube da Esquina, como o Lô e o Beto. Você se tornou o tecladista deles por acaso. Como isso se deu?

Passei a integrar a banda do Lô. Foi o meu batismo. Logo depois da gravação de “Via Láctea”, fomos direto para o projeto Pixinguinha, viajando pelo Brasil inteiro. Eu não era tecladista. Tive que treinar, pegando todas as músicas do Lô. Ele me deu prazo e depois mostrei para ele. Fizemos o Pixinguinha e segui na banda. Até que um dia a gente estava fazendo um ensaio na casa do saudoso Mario Castelo, no Sion, em Belo Horizonte. Quem foi sapear o ensaio? O Beto Guedes. Quando acabamos, ele me chamou no cantão e me convidou para fazer alguns shows de um disco dele que estava superbombando. Topei na hora, mas isso gerou um mal-estar. O Lô não ficou muito feliz com esta proposta. E com razão, já que o cara foi a um ensaio dele para tomar um músico... (risos) Mas consegui conciliar as duas agendas. Cheguei a fazer um show com o Lô a tarde, em São Paulo, e depois, no mesmo dia, tocar com o Beto à noite, no Rio. Às vezes eles tocavam as mesmas músicas, como “Paisagem na Janela” e “Feira Moderna”, mas com arranjos diferentes. Eu tinha que ficar muito atento para não errar. Era uma época de muita droga e todo mundo bebia e fumava. Eu não fazia nada porque tinha que entregar o meu serviço. Depois até podia tomar uma cervejinha. Mas antes, só água.

Outro momento importante de sua carreira foi quando passou a integrar o grupo de Milton Nascimento. Como foi este convite?

Aí foi o chique do chique. Eu já conhecia o Brasil inteiro viajando com o Lô e com o Beto. Era aeroporto, estúdio e hotel o tempo inteiro. Mentalmente, eu não estava muito preparado para esta demanda. Eu meio que me acomodei. Estava ganhando muita grana, já que o sucesso dos dois respingava em mim. Eu achava que estava fazendo o maior sucesso também. Por isso não dediquei tanto à carreira solo como eu poderia. Com o Bituca foi o seguinte: ele resolveu gravar três músicas minhas num disco, o "Pietá". Foi um grande incentivo, maior alegria. Participei da gravação no Rio de Janeiro, passando tardes e tardes tocando piano. Às vezes chegava mais cedo e ficava tocando. O produtor era o Tom Capone  e, nestes momentos, eu mostrava algumas coisas para ele. Aí, quando fizeram a reunião para a turnê do "Pietá", eu não estava na banda. O tecladista era o Kiko Continentino. Aí pintou a questão: este show precisa de alguém que faz um piano mais básico. E o Tom lembrou do meu nome. As pessoas falam que fui chamado porque o Bituca era o meu irmão, mas quem sugeriu o meu nome não foi ele. Claro que o Bituca adorou, topando na hora.

E como foi ganhar, com esta parceria com o Milton, o Grammy Latino em 2003, pela música "Tristesse"?

O Beto queria gravar um tema instrumental meu e sugeriu que o Milton fizesse a parte cantável. Ficou linda, num arranjo belíssimo do Jacques Morelenbaum, com Beto em dueto com a Paula Toller. O Bituca resolveu gravar também, com arranjo de Eumir Deodato. Quando me ligaram para dizer que a música tinha sido indicada ao Grammy, eu já comecei a comemorar. Imagine depois quando eu fiquei sabendo que ela ganhou? (risos) Depois disso, eu achava que ficaria rico. (risos)  Mas abriu portas, melhorando a minha agenda, principalmente em minha carreira solo. E agora na pandemia, posso esquecer (em ficar rico)... (risos) Eu até trabalhei na pandemia, produzindo várias lives. Entre elas, uma com os quatro irmãos, eu e Lô e Cláudio e Flávio Venturini. Fez o maior sucesso. Temos a ideia de fazer uma turnê e um DVD, com produtores já interessados, mas tudo depende da vacina para as coisas retomarem o ritmo.