Um dos motivos para os suínos estarem presentes no título do espetáculo “Porco Solidão”, que será apresentado a partir de hoje em transmissão digital, é o fato de viverem isolados num determinado momento da vida deles, numa alusão à longa quarentena que os humanos estão sendo obrigados a passar devido à pandemia.

A grande inspiração, porém, é musical. Amigos há vários anos, Jeane Doucas, Marcelo Miyagi e Roberson Nunes sempre cogitavam montar um grupo com o nome Porco Solidão, que nada mais é do que um trocadilho com a canção “Porto Solidão”, hit conhecido na voz de Jessé que completou, no ano passado, quatro décadas.

“Nasceu como uma brincadeira de muitos anos do Roberson. De fato, o trabalho foi seguindo para este caminho. Além de ser colocado em isolamento para engorda, o porco tem todas as suas partes usadas. É um produto, assim como os seres humanos. O espetáculo apresenta situações relacionadas com a nossa condição de animais”, registra Jeane.

Além de tema central de “Porco Solidão”, a pandemia tornou real a possibilidade de o trio se reunir num espetáculo. “Por estarmos distantes, o trabalho pôde ser feito de forma remota, além de suprir algumas de nossas buscas no momento atual. Nós entendemos que, enquanto artistas, deveríamos nos expressar sobre o que está acontecendo”, afirma.

No início do trabalho, as contribuições do elenco pareciam desarticuladas, segundo Jeane, mas logo ganharam uma forma coesa. “O que se sobressai é o ser humano e sua estranheza perante este cotidiano que parece simples e comum, mas que passou por transformações muito grandes”.

A atriz define cotidiano como uma “convivência intensa consigo próprio”. Ela assinala que toda comunicação vem se dando virtualmente. “Estamos trabalhando em nossas casas, com intermediação com o mundo acontecendo por meio destes aparatos. No espetáculo, criamos um grande mosaico com possibilidades diversas de significação”, destaca.

“Porco Solidão” transita entre o teatro, a linguagem da performance e o vídeo pré-gravado. “Os acontecimentos se sucedem como se fossem um caleidoscópio de significados em que o espectador vai criando a sua narrativa. Por ser uma obra aberta e não linear, ele é convidado a criar suas próprias sensações”.

Em determinado instante, há uma interação ao vivo com o público por meio do chat do YouTube. “É solicitado ao espectador para que se comunique com um dos personagens e dê ações, comandos e sugestões. É um momento em que cabe bastante improviso, porque não sabemos como o público irá interagir”, revela.

Dirigida por Aline Andrade, a peça poderá ser vista até sábado, sempre no horário das 20h. O acesso para as apresentações é gratuito, com os ingressos devendo ser retirados pelo site da Sympla.