“Um pouco do DNA da inquietação mineira corre em minhas veias”, registra Monica Trigo, ao explicar a razão de aceitar o desafio em assumir a recém-criada diretoria de desenvolvimento e promoção do audiovisual da Empresa Mineira de Comunicação, que a colocará na linha de frente da produção cinematográfica no Estado.

Com pai nascido em São João do Paraíso, no norte do Estado, a ex-secretária de Cultura de Paulínia, entre 2013 e 2015, admite que a volta às origens foi o primeiro motivador. A segunda razão tem a ver com a proposta de unificar o audiovisual mineiro, enxergando nesta produção uma grande possibilidade de Minas se mostrar ao mundo.

“Estar numa empresa nova, numa diretoria nova, representa uma lufada de ar fresco, com a perspectiva de poder contribuir para uma retomada do audiovisual mineiro, que é absolutamente genial. Aqui tem os jovens realizadores e também os diretores clássicos. A produção é de muita boa qualidade”, assinala.

Como secretária de Cultura de Paulínia, Monica teve a oportunidade de fazer da cidade paulista a capital do cinema brasileiro com a produção de vários longas-metragens e a realização de um festival de grande porte. E também experimentou o “outro lado”, assumindo a pasta com um orçamento minúsculo, em Ilha Comprida, no Vale do Ribeira, em São Paulo.

Ela também é uma das diretoras do festival Cine Fantasy – Festival Internacional de Cinema Fantástico, sediado em São Paulo. “Fiquei quatro anos à frente dele e estou licenciada neste momento, já que estas demandas de Minas são bastante grandes, mas espero voltar em breve. É um festival que me deu uma experiência nova”, assinala.

No Cine Fantasy, ela teve a oportunidade de criar mostras dedicadas a filmes realizados por mulheres, criada em 2018, e à diversidade (com temática LGBTQIA+), em 2019. No ano passado, lançou duas mostras voltadas para a formação de público. “Neste ano, será promovido o Fantastic Black Power, com trabalhos de diretores negros.

Como está sendo o processo de tornar a Empresa Mineira de Comunicação (EMC) numa espécie de SPcine, estatal do município de São Paulo criada para promover o desenvolvimento do audiovisual paulistano?

Com a unificação da Rede Minas com a rádio Inconfidência foi criada a EMC e, dentro desta nova instituição, há uma diretoria de desenvolvimento e promoção do audiovisual. Nosso desafio é unificar todas as políticas de audiovisual do Estado, que estavam, de certa forma, fragmentadas, e concentrá-las na EMC, partindo para uma política permanente. É tudo baseado em muito diálogo. Nós fizemos um exercício muito grande, durante este processo da Lei Aldir Blanc, de escuta e construção. Esta experiência permeia toda a ideia de unificação das políticas de audiovisual em Minas.

Você foi empossada no cargo em setembro de 2020. O que foi feito de concreto até o momento?

Nós estivemos voltados, imediatamente, para a Aldir Blanc. Evidentemente que nós montamos um plano de metas que envolve uma série de questões, como a articulação efetiva da Film Commission, a construção do diálogo com os entes federados para que retomemos alguns passivos e a análise dos processos que estavam em pendência e previsão de atividades formativas, que é também bastante importante para a cadeia produtiva do audiovisual. Estamos montando um plano de trabalho baseado em eixos muito concretos. Por exemplo, como vamos trabalhar a questão do desenvolvimento econômico? Fizemos um programa de metas para atender esta demanda específica, consolidando Minas como um importante destino de filmagem no Brasil. Tem também as questões da difusão, garantindo que o conteúdo produzido aqui chegue a todos, e da gestão mesmo, por se tratar de uma diretoria nova, em que a gente ainda está em processo de organização interna.

Qual será a origem destes recursos? Há investimento do Estado também?

Em relação aos recursos para se implementar as ações de fomento, a gente está discutindo internamente com a Secretaria de Estado de Cultura e de Turismo (Secult). Já fizemos uma conversa com a Agência Nacional de Cinema (Ancine) para a recuperação do passivo, encaminhando um plano de trabalho. Mas lá houve uma mudança de gestores e agora estamos aguardando uma devolutiva dessa questão. E também estamos estabelecendo muito diálogo sobre incentivo fiscal.

O Sérgio Rodrigo, presidente da EMC, nos adiantou anteriormente a possibilidade da criação de editais, alguns deles aliados à promoção do turismo. Esta proposta avançou?

Nós fizemos, dentro da Lei Aldir Blanc – projeto emergencial para atender a demanda da cadeia produtiva audiovisual – uma série de diálogos com a sociedade civil para definir quais seriam os editais que poderiam incorporar estes recursos, um dos editais foi justamente para produção e interiorização. Era para mostrar um pouco as riquezas culturais, turísticas e artísticas de Minas Gerais, que ficam fora do eixo da metrópole. Este personagem Minas dentro do audiovisual será fortalecido por meio da Film Commission, que é uma ferramenta muito potente para levar Minas para o Brasil e para o mundo. Faremos também um plano de cadastramento de profissionais para que a cadeia produtiva do audiovisual possa ser impactada pelas futuras produções. Neste momento, estamos focados nestas questões estruturantes para podermos viabilizar os processos. Até poderíamos fazer um edital, mas aí a pessoa produziria e o edital acabaria. Preferimos construir uma política mais permanente.

Você foi uma das pessoas que, em Minas, tomou à frente da Lei Aldir Blanc. Qual é a sua avaliação até o momento?

A lei não foi finalizada. Ela ganhou uma prorrogação de prazos para finalização. Não recebemos ainda o conteúdo, porque a prestação de contas é a próxima fase. O desenvolvimento de alguns projetos acontecerá ao longo do ano, mas eu entendo que a LAB é essencial. Ela fortaleceu os conselhos, com a consolidação da participação da sociedade. Nós fizemos 106 horas de reunião com a sociedade civil. Não é pouca coisa. Todos os nossos editais, do audiovisual especialmente, foram construídos a partir de informações e do diálogo com a Fiemg e representantes do Conselho Estadual de Cultura. Este diálogo foi um facilitador para que chegássemos o mais próximo possível do que era o ideal, dentro, é claro, das perspectivas de uma lei que previa, num prazo muito curto, a elaboração de editais, a análise dos projetos e o pagamento. A LAB é um auxílio emergencial essencial neste momento de pandemia, mas o que fica como experiência para nós é a permanência deste diálogo para construção de processos de editais e para as necessidades do setor.

Que experiência você traz para Minas da época em que esteve à frente do polo de cinema de Paulínia, transformada na Hollywood brasileira?

Diferentemente daqui, o projeto do Polo de Paulínia tinha um recurso muito grande, com os royalties de petróleo. Construiu-se uma escola de cinema para técnicos, uma escola de stop-motion para crianças, quatro estúdios gigantescos onde foram feitas várias produções nacionais e uma cidade cenográfica, além de obtermos recursos para os editais. A minha crítica ao projeto do Polo foi o fato de não tê-lo transformado numa política permanente e mudado o modelo de gestão. O que houve ali foi como poder público, e eu era poder público, como secretária de Cultura da cidade, mas a proposta era tirar da administração municipal para que o projeto tivesse mais controle social. Se isso tivesse acontecido, o Polo ainda estaria de pé. Mas como não foi possível, por uma questão política, ficou à mercê da vontade da administração pública e começou a morrer. Para Minas, o que dá para trazer de experiência é análise do que deu errado para acertar caminhos. É por isso que insisto no diálogo com a sociedade civil, para que promovamos ações que correspondam às necessidades do mercado e dos realizadores e para que possamos levar obras mineiras para os grandes festivais.