A personagem principal do filme “Guerra de Algodão” é uma garota que retorna da Alemanha e se vê num grande conflito pessoal ao lidar com uma cultura afrobrasileira que não estava acostumada, entrando em choque com a sua avó  e anfitriã, figura importante da história da cultura baiana.

O desinteresse da juventude pelo passado é um dos temas centrais do filme que acaba de ser disponibilizado na Netflix. “Dora demorará um pouco a entender o quanto  esse passado pode fazê-la compreender o seu momento presente”, destaca a diretora Marília Hughes, que assina o filme ao lado do marido Cláudio Marques.

“Dora  está vivendo os desafios pelos quais a avó passou lá atrás, ao lidar com o machismo e com este corpo feminino no mundo.  Queríamos um filme que nos fizesse pensar: o que veio antes? Quem abriu as portas? Quem desafiou este sistema? E o que a gente pode aprender e avançar a partir do que elas fizeram?”, assinala.

A juventude, por sinal, é um assunto recorrente na filmografia do casal baiano, presente em “Depois da Chuva” (2013) e “A Cidade do Futuro” (2016). Para Marília, essa é uma fase da vida muito desafiadora e que, apesar dos muitos desejos, a dependência dos adultos acaba sendo um entrave.

“Como lidar com tudo isso nesta fase da vida é algo que realmente nos interessa, porque é um momento de muita potência, em que a gente acredita que pode muitas coisas”, afirma Marília, que chegou em Salvador, vinda de Vitória da Conquista, com a mesma idade da protagonista de “Guerra de Algodão”.  

Jeito mineiro
“Apesar de ser Bahia, Vitória  tem  uma cultura diferente de Salvador. Aqui é uma cidade afrodescendente, caótica e, ao mesmo tempo, sedutora... Já Vitória da Conquista tem um jeito mais mineiro. Foi muito desafiador vir de uma cidade do interior, mas logo me encantei por esta cultura”, compara.

Marques também viveu essa mudança de cidade aos 14 anos,  quando deixou Campinas. A atriz Dora Goritzki, que interpreta a protagonista, idem. “Ela também teve essa história de, na primeira juventude, morar na Alemanha e chegar em Salvador lidando com uma cultura diferente do que ela estava acostumada”.

A dupla agregou a história de Goritzki ao roteiro, uma alteração geográfica que, para Marília, surge num momento em que buscamos dar relevo ao desejo de se construir um pensamento decolonial, com uma personagem que, de fato, está saindo do ideal europeu como lugar de prosperidade e tranquilidade.

“Dora a está abrindo o coração dela para entender a força deste lugar chamado Bahia, trazendo uma discussão mais contemporânea do que confrontar o interior com a capital, que talvez seria um lugar mais óbvio. A cultura alemã deixa Salvador ainda mais contrastante, se pensarmos nas organizações destes locais”, analisa.

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