George Orwell virou sinônimo de distopia ao apontar, na década de 1950, para um futuro em que câmeras nos vigiariam 24 horas por dia e governos totalitários distorceriam a verdade para manipular a população, semeando confusão e ódio.

Sete décadas após a sua morte, em 21 de janeiro de 1970, o escritor britânico é uma das referências para explicar a geopolítica mundial, a partir de obras como “1984” e “A Revolução dos Bichos”, que estão retornando às livrarias devido à efeméride.

Aproveitando que as obras caíram em domínio público e o calor político provocado pelas eleições americanas, oito editoras brasileiras investiram em novas traduções. “Cada editora tenta dar ênfase num aspecto”, assinala o tradutor Alexandre de Souza.

Ex-editor    da Biblioteca Azul, Cosac Naify e Editora 34, ele assina as versões que estão sendo lançadas pela Edipro, que, segundo Souza, buscam o público mais jovem. “São edições mais simples, em que praticamente não fiz notas (<CF36>de rodapé</CF>)”, avalia.

“1984” foi o livro que mais trouxe desafios ao tradutor, já que aparenta ter mais de um autor, cada um apresentando uma forma de narrar diferente. “Você precisa achar o tom certo, para expressar estes diferentes níveis textuais”, destaca Souza.

Na história, um funcionário público trabalha falsificando registros históricos, para moldar os acontecimentos do passado aos interesses do governo. Ele acaba se rebelando contra o sistema  e, mais tarde, preso, passando por grandes torturas.

O teor do livro já foi usado tanto por críticos da Direita como do Socialismo, mas Souza observa que a principal crítica de Orwell é contra o colonialismo britânico. O próprio escritor foi da Polícia Imperial da Índia e viu de perto o uso exacerbado da violência.

“Orwell era um cara socialista que, como ele gostava de dizer, fazia crítica ao stalinismo pela esquerda, de dentro do socialismo. Tinha uma visão de classe média, do trabalhador. Em ‘A Revolução dos Bichos’, você percebe esse sentido engajado”, pondera.

“A Revolução” é um livro infantojuvenil e mais divertido, distante do tom trágico de “1984”. Nele, Orwell satiriza, em forma de fábula, usando os animais de uma fazenda, a busca pelo poder, no qual alguns oprimidos se tornam opressores.

“Eu não concordo com muitas das posições políticas dele, mas é um escritor maravilhoso, apresentando um realismo sem nenhum ornamento. Às vezes, ele até põe a nostalgia de uma paisagem, mas é muito pouco”, assinala Souza.

O tradutor afirma que, hoje em dia, estamos vivenciando situações sociopolíticas muito parecidas com as mostradas nestes livros. “Naquela época, logo após a Segunda Guerra, Orwell já falava da ameaça da formação dos grandes blocos políticos”, pondera.

Paralelos que também podem ser feitos com o Brasil, em especial à repressão à liberdade de pensamento e da imprensa. “É o retrato do esgotamento do pensamento utópico, mas a ideia de transmitir uma verdade fundamental do homem não morre”.