Embora a discussão política seja um elemento vital no filme argentino “Um Crime em Comum”, que será disponibilizado na Netflix no dia 28, a história se sustenta  sobre uma questão ética: por que uma professora se omitiu ao testemunhar um crime?

O fato de ela ensinar Sociologia e indicar Marx como leitura para seus alunos corrobora para ampliar ainda mais este conflito. “Mesmo tendo uma visão crítica do mundo, vivemos uma certa comodidade”, afirma o diretor Francisco Márquez.

Independentemente de ideologias, “Um Crime em Comum” aponta para uma triste estatística: pelo menos um jovem de baixa renda  morre, por dia, pela ação de policiais na Argentina. Retrato não muito diferente do Brasil e do resto da América Latina.

“Isso é um horror. Não podemos deixar que naturalizem isso”, assevera Márquez, que teve o filme selecionado na competição oficial do Festival de Berlim, na Alemanha, do ano passado. Para ele, é preciso que se recupere certas utopias.

Miséria
“Não podemos conviver mais com essa dor, com essa  miséria. Precisamos de algo que exija uma prática correta com o outro”, afirma o realizador. O fato de a protagonista, Cecília, ser uma professora universitária põe em xeque os seus ideais de esquerda.

“Isso tem a ver com um fenômeno mais global, com os intelectuais – não de maneira total – se refugiaram na Academia e abandonaram a luta dos anos 70, durante a ditadura, aceitando um projeto de política liberal”, analisa Márquez.

Ele não tem dúvidas de que é necessário mudar urgentemente o sistema em que vivemos. “O sistema capitalista é um terror e o filme faz uma crítica neste sentido. Ele é um grito de que precisamos fazer algo. Não tenho as respostas, mas é preciso fazer”.

O cineasta não pesa a mão na reflexão política, trilhando um caminho mais psicológico. A personagem vivida por Elisa Carricajo está presente em praticamente todas as cenas e a narrativa acompanha a derrocada dela, impulsionada pela culpa.

“Interessava-me bastante mostrar os espaços se degradando, se deteriorando, com a personagem assumindo ações erráticas. O filme tem esses elementos do gênero terror”, destaca Márquez, que assina o seu segundo longa-metragem de ficção.

Para ele, o que aconteceu com Cecília pode muito bem se repetir com qualquer um, ao ter a sua “concepção de vida arrombada e levada a pensar de novo”. A crítica de Márquez surge na forma de pergunta: “Se algo nos forçasse a sair de nosso conforto?”.

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