Numa entrevista coletiva, realizada de forma virtual com os principais veículos do país, o rapper e compositor Emicida iniciou a conversa reproduzindo um poema escrito por Mario Quintana, sobre uma mulher velha que, a cada ano, sobe um prédio de 12 andares, chegando ao topo já muita cansada e sem ver sentido na vida. 
 
“Ela pula e, ao passar por cada andar, vai ficando mais jovem. Quando chega lá embaixo, é uma criancinha de novo. Quando perguntam o nome da criancinha, ela responde que é esperança”, assinala Emicida, ao comentar o lançamento do documentário “AmarElo – É Tudo pra Ontem”, disponibilizado a partir de hoje na Netflix. 
 
O rapper conta esta história para falar do que mudou do lançamento do terceiro álbum (também chamado “AmarElo”), em outubro de 2019, para o filme, com uma pandemia entre eles. “Se nos momentos em que a gente está numa situação estável é bonito que a gente tenha esperança, num momento como este é obrigatório”. 
 
No documentário, explica, ele buscou mostrar pessoas que não só sonharam como também construíram resultados práticos por meio dos sonhos. “A provocação maior que fica no projeto, tanto do disco como do filme, é que a gente precisa dar continuidade à essa grande linhagem de sonhadores”, afirma Emicida.
 
Ele está falando principalmente dos personagens que participaram da história da cultura negra no país nos últimos 100 anos. Mesclando cenas do show realizado no Teatro Municipal, em São Paulo, e de bastidores da produção com relatos históricos, Emicida comenta, por exemplo, o papel do samba no movimento modernista de 1922.
 
“A Semana de 22 foi a tentativa de o Brasil contar a sua história. A mensagem principal dela foi chacoalhar esse país para que o Brasil também fosse uma referência, e não só os movimentos artísticos europeus. Ele tem um paralelo com o samba porque este já estava sendo reverenciado pelo centro cultural do mundo, que era Paris”, destaca o rapper. 
 
No filme, acompanhamos a trajetória de Oito Batutas, conjunto musical formado por Pixinguinha e Donga, entre outros, que, justamente em 1922, levava a cultura negra para Paris. Emicida salienta que é preciso entender o samba como um antecessor do movimento moderno, “não só no universo artístico, mas como também no político, ao se tornar um pensador de Brasil”. 
 
Pandemia 
Se não fosse pela pandemia, avalia Emicida, o filme provavelmente teria sido um produto diferente. “A gente talvez teria saído mais para a rua para captar imagens. Captei pouquíssima coisa aqui de casa, feitas com uma mini-DV velha. Esta limitação foi convertida em liberdade, usando animação e acervos de outros materiais, que enriqueceram bastante”. 
 
Estas imagens, segundo ele, dão um peso histórico ao documentário. “Porque você está expondo fatos que antecedem ao Emicida. Como o projeto inteiro fala sobre coletividade, nada mais bonito do que fazer isso”, registra. A pandemia acabou entrando como tema na parte final do filme, reforçando a mensagem do artista sobre confiança no futuro.